VISÕES DA MULHER NO ANTIGO EGITO

Março é considerado o mês da mulher já que no dia 8 é celebrado o Dia Internacional da Mulher e para marcar esta data aqui no Blog,  vamos resgatar visões sobre a mulher no Antigo Egito. Para isso, analisaremos alguns textos de um gênero literário usualmente denominado “Instruções de Sabedoria”.

O título egípcio “Instruções” sugere que esses textos tenham constituído trabalhos didáticos compostos de máximas e preceitos. Uma das características mais marcantes dos escritos desse gênero é que expressavam um pensamento tão dirigido e rígido como se tivessem sido criados dentro de uma moldura. Tais textos manifestavam uma noção de sociedade regrada e perfeitamente organizada. Mas quais as visões da mulher institucionalizada no Antigo Egito e veiculadas por esses textos? Qual o papel social que a mulher era induzida a desempenhar? O que lhe cabia ser e fazer para a organização da sociedade? 

Assim como o sol diariamente faz um trajeto, do raiar ao ocaso e o Faraó é a representação antropomórfica dessa ordem natural e imutável, as pessoas comuns tinham, no Antigo Egito, uma ética e um código de comportamento básicos. Homens e mulheres endeusavam fenômenos da natureza e ritualizavam suas próprias ações em uma notável harmonia com a cosmovisão da coletividade.  Os textos de todos os gêneros, com notada importância das “Instruções”, veicularam em todos os períodos valores e comportamentos esperados de homens e de mulheres. 

Nesses textos, começando com Os Ensinamentos de Hergedef , a importância da mulher é dada apenas indiretamente pelo seu papel de reprodutora. Valoriza-se sua participação no processo de reprodução, mas não sua figura feminina como tal. Os Ensinamentos de Hergedef são a primeira obra do gênero e datada provavelmente da IV Dinastia. Hergedef, filho do rei Queops e considerado um dos homens mais sábios do Egito Antigo, compôs a obra para seu filho Auibra

Já nas instruções de  Ptahotep, composta na V Dinastia, 37 máximas formam uma espécie de código moral. Nesse trabalho, a relação entre homens e mulheres é citada e analisada sob quatro aspectos: Ptahotep aconselha seu filho a evitar o contato com as mulheres em qualquer lugar que entre, pois a mulher estranha pode ser perigosa; aquela que está como companheira e ao alcance do homem, deve ser amada, vestida, alimentada e não maltratada. Tais cuidados são importantes na relação entre os dois porque vai assegurar a mulher em casa.

As instruções do rei de Heracleópolis, com características de um testamento, preocupam-se em frisar a importância de não se oprimirem as viúvas. Essas mulheres, sós, tal como Ísis no Mito de Heliópolis, representam a força vital, que sobreviveu a morte do companheiro e que continua a gerar vida. Por essa razão, não prejudicá-las têm a mesma importância que não expulsar um homem de suas terras ou não reduzir as terras de um nobre. As carpideiras, por sua vez, cumprem o seu papel de chorar, participando de um ritual pleno de duplo sentido: chora-se a passagem apenas de um ciclo vital para outro, mas há alegria nesse processo. As lágrimas representam a água que fertiliza a terra e os gritos traduzem a saudação dos animais ao raiar do sol. 

As instruções de Any, do Novo Reino, trazem conselhos em parte semelhantes aos das Instruções anteriores, como os cuidados que um homem deve ter com mulheres estranhas, principalmente as belas. Inovam, entretanto, quando valorizam a precocidade dos relacionamentos e a manutenção dos vínculos maternos. Aos elogiar ambas – a mulher companheira e a genitora – o homem está, conforme Any, lutando pela vida. A batalha é diária e magnificamente exemplificada no último conselho, em que Any sugere ao homem que dê liberdade à mulher em casa e que resista as tentações surgidas fora de casa. 

Em síntese, as Instruções fortalecem a visão da mulher como geradora de vida sem esquecer o lado malicioso e maldoso da figura feminina, mas, sem dúvida, na base permanece a sua posição enaltecida na casa. A mulher, no espaço do seu microcosmo e à semelhança do sol no firmamento e do Faraó na terra, tem a responsabilidade do ciclo vital. Como geradora de novos seres humanos desempenha no dia a dia uma função tão expressiva quanto à do sol que marca as estações do ano. 

Você pode ler essas e outras curiosidades no livro :

Fatos e mitos do antigo Egito

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