VINHO E CERIMONIAL NO EGITO ANTIGO

Em julho de 1990 apresentei, em Garibaldi (RS), em reunião científica, uma comunicação, intitulada “A magia histórica do vinho”, sobre o significado e o consumo do vi­nho no Egito Antigo. Na oportunidade, à guisa de conclusão, estabeleci um paralelo sobre o significado do consumo do vinho entre os egípcios antigos e a época em que vivemos. Nessa ótica, evidenciou-se que para modificar sen­timentos e até comportamentos, o vinho, quando exageradamente ingerido, sempre despertou receio aos humanos, os quais ao sentirem suas vulnerabilida­des, compreendiam como ilusórias todas as suas certezas. 

Os pesquisadores modernos não sabem onde e nem quando a viticultura começou. Alguns autores sugerem que tenha sido área que se estende do Turquestão ao sul das montanhas do Cáucaso na Ásia Menor em direção ao interior da Trácia. A  prática da viticultura, desenvolvida nessa área, foi levada para o Egito ainda durante o período pré-dinástico. 

Ao longo do período faraônico o termo genérico para o vinho era “irp” e o sinal determinativo para caracterizar a palavra era a representação de dois jarros, do tipo destinado a armazenar bebida. O termo continuou a ser usado no período Ptolomaico e no Romano, sobrevivendo no Demótico no Cóptico. 

No século V a.C, Heródoto afirmava que os egípcios, em vez de vinho, usavam uma  bebida feita de cevada pois não havia vinhas em em vez seu território. Heródoto dizia que os sacerdotes constituiam uma exceção, pois, devido ao importante papel social que desempenhavam, tinham direito de tomar o “vinho de uvas”. Lesko,  embo­ra contestando Heródoto, justifica a observação do historiador grego ao ex­plicar que, naquela época, as videiras egípcias ficavam escondidas, entre muros das ricas propriedades e longe dos olhos dos visitantes (LESKO, 1977: 13). Segundo o historiador,  a cerveja era a mais comum e popular bebida alcoólica do Egito, o que não é errôneo, porém não destaca o papel do vinho, fato que torna incompleta a sua descrição sobre o consumo do álcool.

Atualmente, é muito fácil comprovar o engano de Heródoto nas suas observações sobre o vinho no Egito, pois, no­vas fontes, de caráter arqueológico, como escavações em sítios de ocupação muito antiga , bem como textos literários e ilustrações em tumbas, permitem que se atribua uma grande antiguidade ao costume de, com frequência produ­zir e beber vinho no Egito Antigo.

A mais antiga evidência de vinho no Egito, veio do povoamento pré-dinástico de El Omari, ao sul do Cai­ro atual, onde sementes silvestres de uvas foram encontradas; Ou talvez o exemplo mais antigo, seja de um jarro de vinho intacto com uma estampa real no selo, originário do reinado do Faraó Den, da I Dinastia (P00,1984:5).

Através do estudo da origem do vinho, no Egito Antigo, algumas coisas sobre sua sociedade ficam muito claras. Primeiro, a produção do vinho era pequena em comparação com a da cerveja que, por ser feita de cevada, era básica para a sobrevivência dos egípcios antigos. Se, de um lado, os vinhedos exigiam aguadas diárias, portanto uma produção extremamente onerosa no Egito, de clima desértico; de outro lado, a cerveja era cultivada através dos métodos tradicionais de irrigação, cuja montagem e funcionamento faziam parte constitucional da economia do País, não necessitando de gastos e mão de obra extras. Por isto, e não apenas pelo fator climático, o vinho era bebido com mais frequência pelas pessoas situadas nas camadas mais altas da ordem social.

Jarra de vinho da I dinastia
Imagem: © The Trustees of the British Museum

O vinho, para a população de um modo geral, era proibitivo, pelo seu alto custo. A sua degustação, revestida com a crença em suas muitas propriedades curativas, certamente o tornava um líquido precioso para as pessoas pobres, que o consumiam nos momentos de doença.

O cultivo do vinho, pouco familiar a maioria dos egípcios, requeria de um lado, a importação da bebida das áreas mais especializadas na sua produção, para suprir a sua necessidade nos rituais e festividades, onde o vinho era fundamental.  De outro, exigia trabalhadores especializados no seu cultivo, os quais podiam ser homens livres ou prisioneiros de guerra, trazidos mormente da Síria.

O vinho, como bebida especial, apenas excepcionalmente tornava-se um líquido para saciar a sede. Isto conferiu-lhe um significado  superior àquele que ele tinha pecuniariamente.

Dessa forma, o estudo de um simples objeto – no caso o vinho -e  seu consumo no Egito Antigo constitui-se em um meio de penetrar na sua realidade concreta de trabalho, pela identificação das diferen­ças no nível de vida entre as ordens sociais, pelo resgate de aspectos impor­tantes daquele imaginário.

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