Uma noche em el Nilo: egiptomania no Uruguai

Em 30 de dezembro de 2004, a chamada para o réveillon do Hotel Conrad, em Punta Del Este, famoso balneário uruguaio, tinha como título Uma noche em el Nilo. É de se perguntar, em pleno terceiro milênio, sobre as razões da escolha desse tema, para uma festa no extremo sul da América do Sul.
Trata-se da recorrência a um período histórico que produziu ícones bastante relevantes para o patrimônio histórico da humanidade. A escolha é, portanto, plausível, tendo em vista a necessidade de criação de um cenário festivo de caráter internacional, cuja identidade possa ser partilhada por todos, com vista a congregar gente de várias partes do mundo que ocorrem, nessa época, ao referido balneário. Afinal, o que é o ser humano sem a sua história comum?

O convite para a festa informa que o hotel Conrad vai decorar o grande salão de festas com seiscentos metros de papiro especialmente importado do Egito e apresentar recriações das esculturas da esfinge e de Tutankhamon, utilizando, para tanto, onze toneladas de areia; os anfitriões vão exibir um modelo original da guarda imperial de Ramsés II. O anúncio promete uma noite majestosa na qual mais de quinhentos deuses e deusas, provenientes de toda a região e também representantes da nobreza, estarão desfrutando de uma noche faraônica y se divertirán a la grande.

Convite para Una Noche en el Nílo

No convite, um cenário de um hall em estilo egípcio, com seis colunas, ao fundo, cobertas de inscrições em hieróglifos e imagens de deuses egípcios. Em primeiro plano, há apenas um trono dourado, com um homem adulto sentado. Ele porta uma espécie de nemes, toucado egípcio usados pelos faraós, de cor azul, com pedrarias; usa também um colar largo, igualmente com incrustações em pedras, e veste uma túnica branca com pequenos bordados. Na mão, leva um chicote, outro símbolo do poder faraônico. Simpática e descontraída, a figura central representa Mangoldsés III – O Faraó da Dinastia Conrad – à direita, ladeado por uma bela jovem, ricamente vestida, com interpretações livres de túnica e jóias egípcias, denominada Silvilufertiti – a Marketemperatriz. À esquerda, o Faraó aparece acompanhado de outro governante egípcio, em pé, usando uma coroa branca, do alto Egito, intitulado de Vipñamenotep I, o Faraón de
Kasinops. Ainda à esquerda do monarca sentado, há ainda uma outra figura real, também portando a coroa do alto Egito, chamado de Sernakámón II, o Farón Gobernante.

Outra imagem do convite para Uma noche en el Nilo

O uso do tema Egito antigo em uma festa é prática bastante antiga, no mundo todo, já há milênios. Temos muitos exemplos dessas apropriações no Brasil. Mas essa festa em Punta Del Este chamou a atenção pelo seu inusitado. O Uruguai, muito embora tenha longa tradição em estudos de egiptologia, nada tem publicado sobre as práticas de egiptomania que lá ocorrem.

A egiptomania é o fenômeno mais antigo e longo de transculturação jamais ocorrido na história da humanidade. Pode ser estudado tanto em relação a essa longevidade, manifesta pelo uso sistemático de três grandes ícones – pirâmides, esfinges e obeliscos –, como no que concerne ao entendimento, de cunho genealógico, do surgimento de casos isolados, particulares e localizados em diferentes contextos do planeta, de apropriação como é o caso de uma festa temática, sobre o Egito faraônico, a acontecer no extremo sul da América do Sul.

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