Uma herança, recebe-se: o antigo Egito no Brasil

Jacques Le Goff no seu livro O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval analisa atitudes de homens dessa época em relação a valores vindos da antiguidade européia, concluindo (…) uma herança recebe-se não se cria: e essa herança, obriga a um esforço, para aceitá-la, para modificá-la ou para rejeitá-la, quer a nível coletivo quer a individual. A reflexão de Le Goff lembrou-me as palavras do egiptólogo francês Georges Posener sobre o que ele chamou de um “legado faraônico” literário deixado à humanidade, como segue:

O fascínio exercido pelo antigo Egito é responsável por
romances modernos que o tomam como sua localização
ou dele tomam idéias de empréstimo, adaptando-os a
diferentes gêneros de escrita romântica, sentimental,
oculta ou de detetive. Isto também é uma
forma indireta do legado do Egito…

Ziegler analisou a tradição grega, essencialmente a literária, ensinando que ela se formatou e teve um papel central no contato com o grupo espetacular de textos deixados pelo antigo Egito. Foi através do olhar grego que a literatura do antigo Egito nos chegou. Segundo Ziegler, os gregos eram argutos e muitas vezes apaixonados observadores que viam os antigos Egípcios de fora, como  turistas, quase como jornalistas.

Já os romanos, entende Ziegler, que governaram o vale do Nilo desde o primeiro século a.C, adiante, o Egito fazia parte de uma experiência diária. Em política e administração, eles confrontavam tudo, e descobriam uma cultura totalmente diferente da sua.

Embora Roma tenha sido o maior ponto de contato entre Egito e o ocidente,o seu papel foi muito ambíguo: Roma perpetuou uma certa visão do Egito que se confundiu com a realidade. Sem ligações com  as tradições faraônicas e nenhuma familiaridade com a terra ela mesma.

Essa prática se perpetuou no decorrer do período medieval e renascentista, como explica, a seguir, na mesma obra, Jean Marcel Humbert, que afirma: De fato, em todos os países do Ocidente, sem exceção têm tentado adaptar a arte Egípcia e fazer uma leitura própria dela. 

Foi apenas em um segundo momento, com a criação da egiptologia e os estudos científicos do século XIX, que se iníciaram com a decifração da escrita por François Champollion, que o Egito começou a ser contado pelos egípcios mesmos,quando sua lingua e, portanto, os registros antigos, a literatura, foram sendo decifrados e lidos pelo mundo todo.

Este texto, sob a ótica da egiptologia, vai falar  sobre outro tipo de  herança faraônica  – não literária –  recebida em outro lugar, o Brasil!

O tom da egiptomania no Brasil

Situado tão longe do vale do rio Nilo em que floresceu o Egito antigo, haveria no Brasil edificações, obras artísticas e/ou literárias nele inspiradas? A essa questão, extensa pesquisa, ainda em desenvolvimento, iniciada em 1995, responde que sim!  

O legado do Egito antigo, neste país, aparece mais sob a forma das imagens que eles criaram, usadas por diferentes esferas do mundo do trabalho e  do social, onde circulam e produzidas quer por pessoas saídas da elite intelectual e econômica quer por gente tosca e/ou despossuída.

Como ensina Ciro F. Cardoso, também “Com a imagem se faz história”,assim, como se fossem documentos, fomos recolhendo traços/imagens da herança faraônica que iam nos chegando pela pesquisa própria, do grupo, e/ou por informações de populares e acadêmicos.

O exame dos dados demonstrou, como ensina Hanna Arendt, que há várias formas da pluralidade humana nas maneiras  de se estar juntos  com outros homens em outras épocas,  de onde surge a ação que leva à escolhas de objetos, assertivas de um passado distante o que caracteriza, com relação à herança egípcia, práticas de  egiptofilia e/ou de egiptomania. 

O primeiro, a “egiptofilia”: trata-se do gosto desenvolvido pelo exotismo e pela posse de objetos relativos ao Egito antigo. Por exemplo, uma pessoa produz o busto da rainha Nefertiti, em gesso, bronze ou qualquer material. Algum compra e  decora a sua casa com o busto. Outra pessoa pode sair por aí, exibindo um anel de ouro com uma imagem de um escaravelho azul de turquesa. Os dois procedimentos são de cunho da egiptofilia. As pessoas simplesmente gostam das peças, sem se interessar por saber exatamente sobre o papel de destaque na história, Egípcia da bela rainha, que foi grande do ponto de vista político, religioso e marco fundamental na História de Gênero. O mesmo, com relação ao significado mítico do inseto – o de renascimento – para a religião mitológicas. O sujeito  usa os objetos, simplesmente, pela beleza  deles ou pelos materiais preciosos em que eles são reproduzidos. Éssa prática é gerada pelo impulso de dar ou receber um prazer visual, sensorial e exótico; 

 A “egiptomania”, que é um termo cunhado no século XIX é uma prática bem mais  antiga que a egiptofilia, mas sofreu um grande impulso no período ptolomaico e romano. Vejamos como começou a egiptomania no ocidente através do uso dos obeliscos: Augusto, o Imperador romano, foi o  primeiro a trazer um monumento para o ocidente.

É importante saber que Augusto, foi precedido em 700 anos, nessa façanha, por um monarca oriental. Conta a tradição que Assurbanipal assinalou sua conquista do Egito levando para a Assíria um obelisco. O que há em comum entre os dois monarcas é que ambos perceberam a importância do monumento, o qual foi, mais tarde, considerado, por Jacques Le Goff como primeiro suporte da memória histórica. Assim, os dois reis fizeram uma primeira grande obra de transculturação ou seja o re-uso de traços da cultura do antigo Egito, de uma forma que lhe atribuiu novos significados. Importa hoje pensar sobre a recepção das pessoas em Roma e na Assíria sobre os obeliscos à época. Hoje, mais do que símbolo de poder, se erege um obelisco como guardião de uma memória . 

Segundo Jean-Marcel Humbert, a pirâmide é a imagem, no mundo, mais usada pelas práticas de egiptomania; a segunda, é o obelisco, sendo a terceira a esfinge, com o “nemes”, toucado de origem egípcia. A egiptomania refere-se a uma prática muito antiga, mas esse termo aparece na Europa apenas no decorrer da primeira guerra mundial. 

A história da egiptologia iniciou no Brasil no século XIX, com D. Pedro I, que comprou as primeiras peças da coleção egípcia do Museu Nacional, considerada, pelos especialistas, como a mais importante da América do Sul. As origens da egiptomania datam desse período e possuem também, entre os seus principais membros, um monarca: o Imperador D. Pedro II, profundo estudioso de história universal, versado em hebraico e  árabe, que  foi produtor e sujeito de práticas  de egiptomania. 

 Entretanto o histórico da egiptomania no Brasil é menos conhecido. Poucos sabem que as primeiras e mais bonitas obras arquitetônicas com elementos do antigo Egito foram construídas neste país por iniciativa da família real portuguesa quando, em finais do século XVIII, o Rio de Janeiro começou a se firmar como o principal porto da colônia portuguesa americana e capital do Vice-reinado.

Podemos dizer que os primeiros exemplos de egiptomania, através da construção de prédios com elementos do antigo Egito brasileiros, foram aqui construídos por encomenda da Coroa Portuguesa. Em meados do século XVIII, o Rio de Janeiro começou a se firmar como o principal porto da colônia portuguesa americana e capital do Vice-Reinado. Diante da expressão adquirida pela cidade aos olhos da Coroa, foi elaborado um programa de urbanização do Rio de Janeiro, tendo como modelo Lisboa. O projeto de cunho iluminista iniciou-se com a criação de um local de lazer no Rio de Janeiro: o passeio público construído a partir de 1779 e inaugurado em 1783.

Nesse contexto, em 1786, foi construído o chafariz da pirâmide, no Largo do Paço, com a dupla função de prover de água aos navios e à população. Ele fundiu em um só corpo o reservatório e o chafariz,  unindo o fazer artístico ao utilitário, característico do pensamento iluminista e também de muitas práticas de egiptomania européias. 

A segunda ‘descoberta’ no Rio de Janeiro trata-se do Chafariz das saracuras, construído, em 1748, que visava a abastecer de água o Convento da Ajuda, de propriedade das freiras Clarissas. O monumento é todo lavrado em granito escuro, com detalhes funcionais e ornamentais em bronze. A planta do chafariz obedece, em princípio, a forma arredondada, em círculos concêntricos, com quatro tanques que se alternam em relação com as quatro escadarias que, através de quatro degraus, levam ao último patamar. Ao centro ergue-se uma taça, que serve de pedestal para um obelisco.

Ela valoriza o sentido ascendente piramidal que os pontos de intersecção entre o tanque e a escadaria formam com o vértice do obelisco, e a apropriação do monumento monolítico da arquitetura religiosa dos antigos egípcios.

Existe no Brasil ao menos uma centena de obeliscos, mas nenhum é original do Egito antigo! Nesse olhar a egiptomania torna-se um lugar privilegiado –  um entre lugar – na expressão de Homi Bhabha, para despertar o olhar sobre o outro e agilizar, nesse sentido, o sentimento de pertencimento e comprometimento do homem para com a história planetária. No caso deste artigo para o momento de criação do legado faraônico: as fortes imagens  dos obeliscos, das pirâmides e das esfinges que estão presentes no nosso cotidiano. E de lembrar que, se Egito antigo é o lugar, onde se escravizou os hebreus, é uma região importante de um grande continente: o africano – de onde vieram os ancestrais da grande parcela da população brasileira . 

Muitas pessoas de talento contribuíram para a difusão da arte e dos símbolos do antigo Egito, desde a antiguidade até a atualidade. Leia o artigo completo aqui e veja outros traços da cultura egípcia antiga que estão presentes no  imaginário brasileiro.

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