Uma Fração da História de Ramsés III

Ramsés III viveu em uma época tumultuada. Muitos povos lutavam ao longo do Mediterrâneo, em sua época, como os troianos e os micênicos. Os gregos iniciavam suas diásporas desesperadas, em busca de terras para fundar cidades-estados. Inexistia lugar para todos na Península grega, principalmente. Eles terminaram por tornar o Mediterrâneo um “lago grego”, tantas foram as suas conquistas nas suas margens.

Ramsés III sabia desses movimentos guerreiros. Foi um monarca atormentado e o último dos grandes faraós no trono do Egito. Quando seu pai morreu – Sethnakhet, de origem pouco conhecida, devido aos saques nos enterramentos, que dificultaram saber a filiação dessa família de monarcas – o nome de Ramsés  já era associado a ele.

O reinado de  Ramsés III durou 31 anos. Os faraós seguintes usaram o mesmo nome e eram, provavelmente, seus filhos (Ramsés IV, V, VI e VIII). Muitos outros morreram cedo, na infância. Há indícios, por exemplo, de que Ramsés VII tenha sido filho de Ramsés VI.      

Medinet Habu, o templo mortuário, quase totalmente preservado, de Ramsés III é o exemplo mais demonstrativo dos que foram conhecidos como os “castelos de um milhão de anos” erguidos pelos Ramessidas na margem oeste de Tebas. 

Segundo representante de uma nova dinastia – XIXª – Ramsés III retrata de maneira brilhante o visual que fez parte da grandeza da dinastia anterior, a XVIIIª.   O Templo memorial de Ramsés III é, sem dúvida, fruto de um modelo inspirado no Ramesseum, que foi, no entanto, muito maior.

A situação do reino não foi a mesma. Os seus registros em Medinet Habu referem inúmeras batalhas violentas. O apelo à proteção dos deuses é também igualmente impressionante. As cenas são sangrentas. Assim, as paredes externas do templo são decoradas com várias campanhas de Ramsés III, notadamente suas guerras com os líbios e com “o povo do mar”. O primeiro pilar mostra o rei golpeando seus inimigos, enquanto fileiras de “anéis de nomes” de cabeças humanas descrevem as terras conquistadas. 

Encontram-se, ali, cenas de procissões religiosas, notadamente as de Min e de Sokar. No canto sudoeste, há o prédio do tesouro, com cenas representando alguns dos equipamentos do templo. Outros objetos de valor do mesmo provavelmente foram guardados em um edifício mais bem escondido, imediatamente em frente à parede norte de um santuário.  No eixo principal do templo está o santuário de Amon, atrás da qual se encontra uma porta falsa para “Amun-Ra unido com a eternidade”, ou seja, a forma divina de Ramsés III. Por causa de suas fortificações, Medinet Habu tornou-se um refúgio para desabrigados em diversos tempos. Os residentes e os operários de Deir el Medina mudaram-se para lá durante o final da 20ª Dinastia (1100-1069 aC).

Ramses III lutou em Orontes pela segurança do Delta. Na terra, ele teve que limpar todo o oeste das hordas da Líbia. Esta é uma das epopéias contada nos relevos de Medinet Habu, em quadros dramáticos e longos poemas.

 Outra adição épica no templo é dedicada às batalhas que salvaram o Egito dos “povos do mar”, Filisteus, Shekelech, Daneanos. Os povos do mar eram uma nação em movimento. Tal como acontecia com os gregos na sua península, eles se lançavam ao mar em busca de terras.

Entretanto, sua frota foi derrotada por forças navais e terrestres na entrada de um braço do Nilo; famílias de imigrantes, chegando da Ásia foram massacradas ou capturadas. Este fato é extraordinário porque os Egípcios nunca se consideraram grandes marinheiros. Eles odiavam o mar que chamavam de ‘o grande verde”, tal como denominavam o Mediterrâneo.

Ramsés III soube manter algumas bases em Canaã, pacificar os Beduínos da Iduméia, explorar o cobre de Timna, no Golfo de Akaba e enviar uma frota a Punt. O Egito vencera “os povos do mar”. 

Bibliografia  consultada

HOBSON, Christine  The World of the Pharaohs, Londres, Thames and Hudson, 1987

YOYOTTE, JEA & VERNUS, PASCAL  Dictionnaires des Pharaons, Paris, Éditions Noêsis, 1988.

SHAW, Ian and NICHOLSON, Paul. British Museum Dictionary of Ancient Egypt, Londo, Trustees fo British Museum Press, 1995.’  

DODSON, Aidan Ramsés III King or Egypt. His life and afterlife, Cairo. The American University in Cairo Press, 2019

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