Uma breve história dos hieróglifos:

Quando os hieróglifos foram criados?

A paleta de Narmer é o mais antigo objeto encontrado a apresentar procedimentos da comunicação escrita, que, a partir de então, estão presentes ao longo de toda a história do Egito, sendo fundamentais quando se tentam entender os princípios básicos de transmissão de valores e as habilidades exigidas dos escribas para esse fim.

A paleta de Narmer relata a forma como foi obtida a unidade entre o alto e o baixo Egito com vistas a gravar as vitórias do faraó sobre os inimigos.

Assim, a paleta de Narmer é, ao mesmo tempo, o primeiro registro em hieróglifos, e um exemplar único de obra de arte como mensagem de cunho histórico. Ela exibe figuras humanas grandiosas feitas para evidenciar suas posições de comando.

No caso, essas figuras referem o faraó, marcando sua soberania, em relação a outras imagens, cuja pequenez e postura indicam a submissão dos inimigos vencidos. Acompanhando essas imagens, aparecem, na paleta, os primeiros registros em hieroglifos de que se tem conhecimento.

Nessa paleta, pela primeira vez, o faraó é representado na sua forma humana, em lugar do animal. Os bichos denotativos do faraó, que ainda ilustram setores dessa paleta, são o falcão e o touro, apontados pelas suas características próprias: o primeiro, pela rapidez e a agilidade no ataque; e o segundo, pela força bruta e a capacidade explícita de reprodutor de sua espécie.

Assim, esse objeto é triplamente importante como ilustração da presente reflexão, pois evidencia as habilidades do escriba como desenhista, os seus conhecimentos sobre a relação existente entre o tamanho de uma imagem e o poder que esse tamanho lhe confere, no conjunto das figuras, bem como o seu domínio e capacidade na utilização da estrutura mista dos hieroglifos, ainda em fase de gênese, constituída de ideogramas e de fonogramas. 

Na paleta, o falcão e o touro, que representam o faraó, são ideogramas, e o nome desse governante – Narmer – também está registrado foneticamente através de dois hieroglifos: um representado pelo peixe e o outro pelo cinzel , que expressam os sons nr e mr , respectivamente.

O faraó Narmer, que, em um dos lados da paleta, porta a coroa branca do Alto Egito, enquanto, no outro, segura uma maçã, importante símbolo de poder, e usa a coroa vermelha do Baixo Egito, parece ter sido o primeiro monarca a ostentar ambos os símbolos. Esse fato confere extraordinária importância histórica a essa lousa, como o mais antigo exemplo de documento em grafia hieroglífica, a demonstrar a unificação dos dois reinos sob um único governante e a representá-lo em sua forma humana.

Os sinais determinativos possibilitam distinguir palavras homógrafas, ou seja, que possuem a mesma grafia, mas significados diferentes. Tais sinais estão sempre localizados, nos textos egípcios, após o final das palavras escritas pelos hieróglifos fonéticos, servindo para indicar o sentido geral daquele conjunto de sinais que os precedem; eles são, tais como os outros sinais, auxiliares da memória.

Pela palavra, os egípcios antigos garantem a repetição do mito, do acontecimento extraordinário, porque, ocorrido uma só vez, ele cairia no esquecimento: o registro de sua memória garante a fama do faraó e do império.

O que se escrevia em hieróglifos, como, para quem?

Dentre os princípios dessa escrita destaca-se, como os mais importante, a ênfase na existência de uma forte hierarquia social, o estímulo à imitação, e, finalmente, a obrigatoriedade de cópia e repetição para o seu aprendizado.

Pouco se sabe do modo como as pessoas eram ensinadas a escrever em hieróglifos. Entende-se que essa lacuna tem fundamento na característica dos antigos egípcios de mostrar apenas aquilo que é permanente, desprezando o transitório; de ressaltar o resultado de um trabalho e não o modo como ele foi realizado.

Alguns valores e habilidades básicas para a compreensão de seu mundo são vividos pelas crianças egípcias desde a mais tenra idade. A própria condição agrária daquele povo residente às margens de um grande rio, leva-o a acumular e a transmitir, desde tempos imemoriais, noções sobre a agrimensura e as ciências que lhes servem de base: a geometria, a astronomia e a matemática.

São fundamentais, no Egito, por exemplo, as relações entre os homens e as cores da natureza. Elas denotam as diferenças entre o espaço da vida e o da morte. O deserto: (dashret) a terra vermelha, que é temida; o Egito, a terra preta: (kemet) que é amada e abençoada dos deuses com o rio Nilo: (Hapy). Para além das montanhas rochosas que delimitam o início do dasrhet, vivem populações que os egípcios julgam desprezadas pelos deuses, pois elas obtêm a água de que necessitam para viver das chuvas: (Hyt) pouco regulares, se comparadas com as regradas enchentes anuais do Nilo, que tornam o Egito tão próspero a ponto de ser conhecido como o celeiro da antiguidade e, nas palavras de Heródoto, uma dádiva do rio. É mister notar, para denotar a complexidade dessa escrita que, entre os ícones, que formam a expressão que escreve chuva encontra-se o ideograma de velho, representado por uma figura humana apoiada em um bastão. Esse ícone tem função de determinativo na construção das palavras que indicam o sentido ainda de chefe e seco, entre outros. Na palavra chuva, entretanto, o significado do ideograma é outro, pois o sentido para chuva é indicado pelos três traços horizontais, determinativos de água.

Igualmente complexo é o entendimento de muitas outras expressões. Assim, muito embora não exista nenhuma palavra que designe união estável, acontece o fato de um casal estabelecer uma moradia comum. A partir daí, a denominação da mulher passa a ser a de a senhora da casa (nbt pr) , o que sugere que o matrimônio, para os antigos egípcios, é mais um ato individual, do que uma relação legalizada. O objetivo mais importante dessa união é ter um filho, especialmente um menino, não somente para continuar a família, mas também para providenciar o enterramento apropriado para seus pais e assegurar que os rituais funerários corretos sejam feitos.

No âmbito familiar, os rebentos, desde cedo, são induzidos a valorizar a importância da palavra: quando do nascimento, eles recebem uma denominação. Como orienta o pensamento mítico, é preciso nomear alguma coisa ou pessoa, para lhe
conferir vida, existência. Geralmente cabe à mãe, ou, eventualmente, a alguém próximo no ato de parto, a escolha do nome do bebê. Esse apelativo tem muita importância, pois a criança o carrega no futuro e pode relacioná-lo a várias coisas, normalmente positivas. Exemplificando, o nome pode significar uma qualidade física: Wersu: ele é grande; uma origem, Paneshy: o Núbio; ou uma homenagem a um deus, Dhutmose: Thot vive.

Ensina Rocatti que, ao escriba qualificado, o sacerdote leitor, cabe a criação de novos termos e, aos demais, o conhecimento para fazer a leitura. Assim, segundo esse autor, a escrita passa a unificar grande quantidade de dialetos falados do norte ao sul do Egito. Por tais razões, alerta Cueva:

Quando trabalhamos com uma linguagem figurada é impossível dispensar a linguagem escrita. O caráter da escrita hieroglífica, que é a que em geral aparece vinculada às cenas em templos e tumbas, forma uma unidade com as ditas representações. Explica ou complementa a tal ponto, que ambas, imagens e escrita formam um todo indissolúvel.

Achamos importante o olhar de Paul Ricoeur, de que a escrita, tal como a pintura, não é uma cópia redutora da realidade, mas um meio para ampliar e dar sentido ao universo. A iconicidade significa, para Ricoeur, a revelação de um real mais real do que a realidade ordinária. Tal dialética exprime, para Ricoeur, a própria condição humana na sua historicidade, contra a ilusão de um saber que a si próprio se possuiria de uma forma imediata e absoluta.

Lendo os hieróglifos, encontram-se ainda traços da história da civilização grego-romana, judaico-cristã. Esses indícios estão presentes desde os primeiros contatos do povo faraônico com os vizinhos das terras continentais, bem como de suas ilhas: Creta, Chipre e o arquipélago das Ciclades. Foi nessa bacia do Mediterrâneo Oriental que, em lugar do chamado milagre grego acontece de fato uma extraordinária fusão dos conhecimentos advindos do que hoje se chama de Magreb, África Negra, Ásia e Europa.

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