Um jovem repórter entrevista José Lutzenberger

 Margaret Marchiori Bakos

Mariano colocou em cima da cama a camisa nova, cor de rosa e a gravata azulada de seda italiana, que ganhara da Clarinha, no último Natal. Ela tinha fios com a cor da gravata, o que fazia uma combinação perfeita. Faltava uma calça nova, mas, certamente, ele ficaria a maior parte do tempo sentado.

Já estava banhado e perfumado, quando o telefone tocou.

Pensava que era Clarinha e foi atender muito aborrecido. Era Joana, do Jornal, devia pegar o fotógrafo em poucos minutos, na sede da Empresa, no centro da cidade. Ficou irritado. O combinado era que o pegaria a duas quadras de casa, porque eram vizinhos.

Se vestiu voando, mas aí o telefone tocou de novo: era Clarinha. 

 – Deus, querida, estou atrasado. Fala logo, o que há?

  – Ai que saco, que cara grosseiro! Não quero mais nada! Fica para depois! .Desligou.

   Mariano se estressou. Gostava mais dessa menina do que de outra até então.

Pegou a pauta que Joana organizara para a entrevista: Uau! o cara era gente muito fina. Foi a primeira pessoa a explicar, nos cinco continentes, porque a Terra é azul. “E alertar que esta atmosfera que nos circunda, e faz também azuis as montanhas vistas de longe, é como uma capa mágica que protege a vida. Destruí-la é uma insensatez…”

Começou a temer a entrevista. Bobagem, era tarimbado. Ia sair bem, foi se tranquilizando até pegar o fotógrafo. Quando ele entrou no carro, sentiu o cheiro do álcool. Era um fotógrafo de jornal que gostava de uma cachacinha, depois do almoço, mas hoje não podia. Começou a contar para o Olmiro quem eles iam entrevistar. Sujeito bem estudado, Olmiro ficou impressionado com o figuraço. Sabia quem era Gaia, a mãe terra dos gregos, se emocionava ao lembrar de Carlos Dayrell, que salvou uma árvore em Porto Alegre, que devia ser abatida em nome do progresso…

 Pela primeira vez, Mariano curtiu o papo com Olmiro e, ao chegar  à casa de Lutzemberger, tinha esquecido da aspereza da conversa com Clarinha.

 Foram bem recebidos pela família e Mariano se encantou com o entrevistado e principalmente com Lilly, sua neta, mas em seguida uma outra figura apareceu e chamou sua atenção. Era um autor gaúcho, que estava sendo buscado pela família, para escrever a história deles.

Emocionado, Mariano cumprimentou Alcy Cheuiche, que desde o lançamento de seu primeiro romance, em 1967, já lançou mais de cem livros na Feira do Livro de Porto Alegre. Vários com edições bilíngues. Foi neste momento que o jornalista notou que usava meias vermelhas, que nada combinavam com a gravata!

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