Teologia e mitologia do vinho no Egito

A mais antiga evidência de vinho no Egito veio do povoamento pré-dinástico de El Omari, ao sul do Cairo atual, onde sementes silvestres de uvas foram encontradas. Novas fontes, de caráter arqueológico, como escavações em sítios de ocupação muito antiga, textos literários e ilustrações em tumbas, permitem que se atribua uma grande antiguidade ao costume de produzir e beber vinho no Egito Antigo. 

As uvas podiam ser plantadas em locais em que as condições do solo fossem favoráveis, que significava, em qualquer lugar do Egito. Entretanto, devido à atenção especial requerida, sobretudo a copiosa regagem necessária no clima quente, eram cultivadas apenas por ricos proprietários de terras. 

O processo de fazer o vinho era muito similar ao método europeu tradicional. Colocavam-se as uvas debulhadas em tinas, suficientemente grandes para conter seis homens que iriam esmagar os bagos com os pés. O suco das uvas escorria para uma tina de coleta, de onde era transferido para um jarro de cerâmica aberto, com base afunilada, para a fermentação primária.  

Os jarros ficavam abertos ou eram levemente cobertos com uma tampa de cerâmica e o suco  era deixado para fermentar. O calor do clima egípcio era suficiente para a fermentação começar, mas é possível que, ou o suco fosse aquecido, ou os jarros eram deliberadamente colocados ao sol para estimular o processo.  No Egito, além do vinho feito de uva, produziam-se também vinhos feitos de tâmaras, de figos, de ameixas egípcias e de romã.

Os vinhos egípcios, por serem bons, eram muito citados em várias listas de oferendas da XIX Dinastia, como os de Imet, Pelusium e os de uma propriedade denominada “Estrela de Hórus no alto do céu”. Estas listas de oferendas e as tampas dos jarros de vinho do Novo Reino sugeriam uma grande circulação interna do vinho. Os jarros da bebida, como os que vinham do Ramesseum em Tebas e àqueles da cidade real de Amarna, portavam nos selos o seu lugar de origem e também o ano e o nome do jardineiro principal responsável pelo seu cultivo. 

A uvas eram comidas como fruta, passas ou usadas para fazer o vinho; as folhas das parreiras serviam para embrulhar arroz ou carne e para segurar a comida nas mãos na hora das refeições.

O consumo do vinho era restrito aos escalões mais altos da sociedade egípcia, pois o seu custo era de cinco a dez vezes maiores que o da cerveja. Os soldados eventualmente poderiam receber vinho como pagamento pelos seus feitos, mas os trabalhadores civis, agricultores, pastores, artesãs ou serviçais domésticos raramente teriam a oportunidade de saborear a bebida. 

Na medicina faraônica, o vinho era bebido como um veículo para a ingestão de outros ingredientes, a borra também era algumas vezes usada com essa finalidade. Acreditava-se que o vinho ingerido com olíbano (espécie de incenso) e mel curavam vermes; com endro (planta aromática) amainava a dor; e com sal curava a tosse. Nesses casos, o efeito devia-se não apenas ao vinho, mas também aos ingredientes adicionais. 

Sabe-se que o vinho era uma bebida muito consumida em diversas festividades no Antigo Egito. durante a cerimônia de coroação de cada Faraó, era costume que o novo rei oferecesse vinho ao Deus Amon. No festival HebSed, realizado a cada 30 anos de reinado, o vinho era também oferecido pelo rei em homenagem aos deuses. 

O vinho era associado especificamente a duas divindades: Osíris e Shesmu. Osíris, senhor dos mortos, também era figura central do festival comemorativo a ressurreição e à enchente do Nilo que traz abundantes colheitas. As vinhas simbolizavm a ressurreição de Osíris e o início de um novo ciclo de vida. Shesmu, deus da prensagem do vinho, tinha dois papéis diferentes: trazer o vinho para Osíris, que significa o seu lado afável; prensar os bagos para extrair o suco das uvas, representando seu poder destrutivo. 

Assim, pelo seu significado teológico e mitológico, o vinho, além de propiciar prazer ao paladar, ainda significava uma quebra de barreiras entre os vivos e os mortos, o secular e o divino. Através da oferenda de vinho aos deuses, o rei esperava, em retorno, ser recompensado com um reinado eterno, com estabilidade e justiça, onde todos viveriam sob a paz de sua lei.

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Fatos e mitos do antigo Egito

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