Sacerdotes e rituais de passagem

Havia muitas categorias de sacerdotes no Egito, cujos rituais diários incluíam, à guisa de purificação, cortar o cabelo de todo o corpo. Isso os distinguia das pessoas comuns, que só enxergavam os hierarquicamente mais importantes nos períodos dos festivais e das procissões. 

A maior chance de um cidadão comum assistir a rituais fundamentais míticos aparecia nos festivais e no período entre a morte de um faraó e a entronização de outro. Neste, nas chamadas “Casas da Morte”, obreiros procediam ao embalsamento do corpo do faraó. Essa prática tornou-se frequente a partir do velho Reino. O processo começava logo após a morte, e durava  cerca de setenta dias, à semelhança do tratamento recebido por Osíris, o morto se transformava, então, em Osíris também.  Realizavam, assim, um ritual sagrado, que lentamente foi alargado dos nobres para os mortos ordinários abastados. Este  processo era inacessível para as pessoas despossuídas que eram simplesmente deixadas para desidratação natural nas areias quentes. 

O embalsamador principal, no caso do Faraó, era o deus Anúbis, seus assistentes  eram identificados com os filhos de Hórus.  O sacerdote leitor dava as instruções aos embalsamadores.  O processo começava lavando-se o corpo com a água do Nilo, então os intestinos eram removidos e o corpo era embebido em natron, impregnado e coberto de óleos, unguentos e resinas; vários amuletos eram colocados nele, ele era enrolado em bandagens de linho e colocado em um sarcófago.”A lavagem com água era uma purificação solar e a água usada para isto era imbuída de um poder vital.”(CERNY, 1951:105) A água era coletada em vasos, que os egiptólogos, explica Cerny, chamaram de canópicos, junto com os outros órgãos do corpo. O cérebro era extraído pelas narinas com um gancho especial de metal. Mais tardiamente, barro e areia foram prensados sob a pele para preservar a forma original. Os produtos usados no embalsamar a pessoa eram mirrah, óleo de cedro, incenso, mel, cera, linho para as bandagens e óleo de oliva. Alguns  desses materiais eram importados de regiões distantes do Egito, por isso, onerosos e de manuseio altamente especializado. 

Inexiste um registro egípcio sobre os ritos durante a mumificação. Nós temos, entretanto, dois papiros, um do Louvre e outro do Cairo, do período Ptolomaico, que falam do processo de mumificação, mas são os dois incompletos e preocupados principalmente com as fórmulas proferidas pelos sacerdotes e muito obscuras pelas referências à mitologia.  

Uma carta endereçada pelo desenhista Pay para seu filho, o desenhista Preemhab, resgata gestos de barganha, revelando a preocupação dos parentes ao organizarem o funeral de um ente querido:

Por favor faça os acordos para obter os dois amuletos com forma de coração de faiança, sobre os quais eu contei a você. Eu pagarei ao vosso proprietário o que ele exigir pelo preço deles. E deverá fazer os acordos para obter esse incenso fresco o qual vos mencionei para envernizar o caixão de vossa mãe. Eu pagarei seu dono por este.  E você deverá estar atento para tirar esse trapo de saiote e esse trapo de uma tanga para refazer o saiote em uma faixa vermelha e a tanga em um avental. Não ignore do que eu tenho vos contado. Faça isto. (WENTE, 1990,p.153).

Para os egípcios, o faraó era deificado durante a sua vida como Hórus, e ao morrer, se transformava no deus Osíris. Com isso, para esse antigo povo, a vida de um rei era ilimitável, muito embora acreditassem que os deuses nascessem como os humanos e que se tornassem estrelas ao final de sua carreira mundana. Tais incongruências tornam a cosmovisão egípcia extraordinariamente complexa e difícil de ser sintetizada. 

De acordo com o mito de Heliópolis, o vitorioso Hórus, além de ser representado pelo faraó vivo, era também identificado ao falcão que, por sua vez, significava o céu. O olho saudável de Hórus era confundido com o Sol; o olho ferido na luta pelo governo do Egito com o tio Seth era identificado com a Lua. Com esse amálgama de elementos da natureza, o falcão tornou-se o maior símbolo da realeza. 

Hórus, uma das representações do deus Sol, sob a forma de um falcão, possuía o Maat, uma força surpreendentemente importante cujo paralelo do campo físico para o ético pode ser sintetizado no adjetivo “verdadeiro”. Personificada pela deusa Maat, essa entidade representava  as leis básicas da existência, corporificava a verdade,  o equilíbrio e a ordem cósmica, qualidades constitutivas de um faraó.

Cada nomo, cidade ou vila possuía deuses, templos e funcionários reais, mais ou menos ajustados a essa cosmovisão. Era esperado que tais serviçais fossem fiéis e metodicamente informassem ao governante os acontecimentos do seu reino, assegurando a continuidade do poder faraônico.

Você pode ler essas e outras curiosidades no livro : O Povo da Esfinge

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