Relacoes nem sempre amistosas: os egipcios e os seus mortos

Os egípcios viam os mortos como entidades com sabedoria e poderes capazes de iluminar a vida dos sobreviventes. Diferentemente de outras sociedades, os defuntos, para os egípcios, não eram na essência malignos. Como os vivos, eles sofriam de oscilações no humor, dependendo do tipo de relação afetiva que os sobreviventes com eles mantinham. Tais laços sentimentais faziam com que os defuntos protegessem ou atormentassem os parentes vivos. 

Através da análise de cartas dos egípcios para os seus mortos, consegue-se ver um aspecto peculiar daquele período: o medo de que os mortos pudessem incomodar os vivos, se por estes fossem magoados ou esquecidos.  Pelo conteúdo dos textos funerários vemos que, na ótica dos egípcios, os defuntos agiam como os “vivos”, morando em tumbas, como se fossem suas casas terrenas.  

As primeiras cartas dos egípcios aos seus mortos datam do Reino Antigo. Ao longo do Primeiro Período Intermediário e no decorrer das dominações persa e greco-romana, elas foram muito populares. Os egiptólogos concordam em indicar a XIX dinastia, a dos Ramsés, como a fase clássica dessa correspondência peculiar. 

Na visão de Wente, tais documentos funcionavam basicamente como petições, feitas em forma epistolar, através das quais os egípcios buscavam comunicar-se com os seus mortos. Eram mensagens geralmente escritas em grafia cursiva hierática, encontradas em papiros, estelas ou em vasilhas, tipo bacias, as quais juntamente com as oferendas, eram depositadas nas tumbas dos mortos. 

Nas missivas aos falecidos, os vivos pediam geralmente para não serem perseguidos por espíritos descontentes e malvados. Pela crença no poder dos mortos de influenciar acontecimentos, os terrenos ainda pediam auxílio nas disputas com os próprios vivos.  Essa correspondência bizarra pode, com certeza, revelar outros aspectos daqueles homens, sobretudo a cumplicidade que estabeleciam entre si, independentemente das relações de carne e de osso.

Confira algumas das cartas:

Da VI Dinastia, a carta foi descoberta na tumba de Sanekhenptah, em Saqara, escrita em tela de linho. E uma mulher que a endereça ao marido, em defesa do filho de ambos: 

Carta de um filho (Shepsi) para o pai (Inekhnmut) e para a mãe
(V i):
Da XI Dinastia, selecionamos a missiva de um filho aos seus defuntos. Ele dizia ter sido bom para os pais, ter sido ofendido e pedia justiça contra um irmão morto anteriormente, que o apelante também tinha tratado com generosidade.

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