PIRÂMIDES, IMAGINÁRIO EGÍPCIO E ARQUITETURA BRASILEIRA

Boa parte das centenas de construções contemporâneas em forma piramidal procura atualizar o sentido original das pirâmides egípcias e, com ele, passar a ideia de solidez e permanência. Tal simbologia, aliada à beleza da forma e às potencialidades como recurso arquitetônico, tornam essa figura geométrica elemento muito presente em edificações contemporâneas em todo o mundo. A princípio pode parecer difícil perceber os vínculos entre essas edificações modernas e os mitos egípcios. No entanto, observando-as com cuidado, é possível constatar que tais vínculos estão mais presentes do que parecem, inclusive no imaginário dos brasileiros.

A adoção das pirâmides como símbolo evidente não só de solidez mas também de poderio e misticismo é de fato facilmente observável, tanto em residências particulares como em estabelecimentos comerciais. No primeiro caso, apresentamos aqui um curioso exemplo, identificado numa casa construída em 1989, na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul”.

No segundo caso, um bom exemplo é o Pirâmide Hotel, em Natal, que exibe no telhado uma pirâmide branca. O adorno destaca-se no luxuoso complexo arquitetônico de lazer, formado por bares e piscinas, cercado pela belíssima vegetação do Nordeste brasileiro e seus altaneiros coqueirais. Na mesma cidade de Natal, existe também uma academia de ginástica cujo prédio possui a forma de pirâmide, apelo extra para atrair a atenção do público e sugerir a excelência dos serviços oferecidos.

Em Brasília, particularmente, há grande incidência de edificações em formato piramidal ou apresentando elementos da arquitetura egípcia. Pelo número inusitado e qualidade desses exemplos na capital federal, bem como pela própria história da cidade, que possui projeto urbano arrojado, Brasília tem inspirado muitos livros sobre sua arquitetura”. De todas as construções existentes, destacamos aqui a pirâmide da Legião da Boa Vontade, que ilustra bem a relação atual entre a forma das pirâmides e o misticismo.

Na cidade de Brusque, Santa Catarina, uma construção de 324m2 abriga a Fundação Ecológica e Zoobotânica, instituição ambiental que, de forma pioneira no Brasil, planeja colocar em funcionamento um laboratório de reprodução da fauna, com o objetivo de multiplicar espécies nativas. Na Fundação, uma estufa em forma piramidal, feita de aço, com fibra de carbonato na parte superior e sombrite na inferior, mantém temperatura e umidade naturais, necessárias ao crescimento das plantas. A instituição mantém mais de 300 espécies de orquídeas e bromélias, com visitação aberta ao público.

Também em Brusque, uma floricultura adotou o formato de pirâmide por três motivos. O primeiro, chamar a atenção dos passantes pelo contraste criado entre a arquitetura da loja, em estilo alemão, e a pirâmide. Segundo, atrair “boas energias”, conforme a crença de que as pirâmides são poderosos instrumentos de captação. E terceiro, a forma encontrada foi claramente inspirada no Parque Zoobotânico da cidade. O exemplo da floricultura de Brusque é significativo, na medida em que mostra a apropriação de formas egípcias motivada por uma série de fatores aparentemente díspares, mas, na verdade, convergentes.

No entanto, para evitar interpretações apressadas, não se pode dizer que todas as construções que lançam mão de pirâmides em sua estrutura sejam manifestações de egiptomania, pois é preciso que seus usuários e/ o u responsáveis assim as reconheçam. A escolha das formas pelo arquiteto, em muitos casos, pode ser puramente estética ou funcional. Na realidade, um inventário da arquitetura egipcíaca no país ainda está por ser feito. Eis um campo fértil e promissor para futuros pesquisadores que desejarem se aventurar no assunto.

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