Pirâmide S/A e Pirâmide Ltda?

Existem, pelo menos, cerca de 235 estabelecimentos comerciais no Brasil que ostentam este nome em suas tabuletas ou placas de néon. São empreiteiras, colégios, papelarias, gráficas, escritórios de contabilidade, lojas, mercearias e até mesmo motéis. E não são menos de 25 as empresas do país batizadas em homenagem a alguns dos mais conhecidos faraós do antigo Egito, construtores de duas das três grandes pirâmides de Gizé: Queóps e Miquerinos. Imagina-se que pelo mesmo motivo, sejam igualmente comuns, no Brasil, empresas registradas com nomes de deuses egípcios. Os mais lembrados são Hórus, uma das representações do deus-sol; Rá, a maior de todas as divindades do Egito antigo; e Anúbis, o deus representado por um chacal.

Publicitários, proprietários de estabelecimentos comerciais e fabricantes de produtos, quando decidem utilizar elementos egípcios na divulgação de seus negócios, o fazem, na maioria dos casos, baseados em uma escolha refletida. Procuram encontrar, nos símbolos egípcios, um eficaz apelo de Marketing, que supostamente representaria garantia extra para o sucesso dos empreendimentos.

As figuras das esfinges e pirâmides, por exemplo, foram apontadas como símbolos que remetem imediatamente à solidez, grandeza, durabilidade, ascensão, sabedoria, perfeição, segurança, força, fascínio, proteção, sedução, magia, energia positiva,  mistério e, também, popularidade. Que conjunto de outros atributos poderiam ser mais adequados, por exemplo, para consolidar a imagem de credibilidade de uma empresa do ramo, digamos, da construção civil? Não é à toa, portanto, que além de ostentá-la no próprio nome de fantasia da firma, grandes construtoras façam uso constante da pirâmide – e de outras referências ao mundo egípcio – para batizar empreendimentos imobiliários específicos. 

Na cidade de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, por exemplo, a Pirâmide Empreendimentos Imobiliários nomeou alguns dos edifícios erguidos por ela com os nomes de Quéfren, lbis, Ramsés I, Apis, Ísis, Amon-Rá. Hórus, Tutmosis, Queóps. Exemplos similares são encontrados em outras cidades, de norte a sul do Brasil. Em João Pessoa, a Construtora Pirâmide batizou seus edifícios de 1ª Pirâmide, 2ª Pirâmide, 3ª Pirâmide e assim por diante. 

No caso da construtora de Bento Gonçalves, segundo informaram seus proprietários, buscou-se um nome que “pudesse identificar o produto e a sua finalidade com a solidez e a segurança que a arquitetura das milenares pirâmides do Egito têm legado ao mundo”. Um dos diretores da Pirâmides Empreendimentos afirmou que considera o Egito antigo um exemplo excepcional para o setor, exatamente pela perenidade de suas construções.

Assim, temos aqui um fenômeno típico da egiptomania. A pirâmide – que foi, na origem, o ponto principal dos complexos funerários dos reis egípcios – teve sua imagem reutilizada na divulgação de serviços e produtos contemporâneos, atribuindo-se a ela um sentido bem diverso do original. Ou seja, ao lançar mão daquele que  é considerado um dos principais símbolos egípcios, houve a nítida intenção de agregar aos produtos valores como perenidade, solidez, credibilidade e sabedoria. 

Mas não é só no setor da construção civil que a pirâmide é frequentemente utilizada para passar ao público consumidor o conceito de solidez e credibilidade. Encontramos a mesma forma geométrica, sempre associada à civilização egípcia, compondo logotipos e logomarcas de diferentes estabelecimentos comerciais, das mais variadas áreas do mercado, em pelo menos 21 estados brasileiros. Este, é lógico, não é um fenômeno nacional e se repete em outros países do mundo.

Segundo o especialista em marketing Gilbert Strunck, decisões de compras e de contratação de serviços são muitas vezes tomadas por impulso, de forma irracional, quase instintiva. Nessas ocasiões, quem possui dinheiro suficiente vai preferir comprar produtos ou marcas com que se identifique ou em que confie. Tais disposições afetivas são naturalmente fortes em relação ao antigo Egito, cujas imagens de construções grandiosas fazem parte do imaginário ocidental há séculos, sendo transmitidas tanto pelas escolas como pelos meios de comunicação de massa.

A propósito, o proprietário de uma lanchonete, situada na periferia de Porto Alegre, contou, com espontaneidade, sobre a influência dos conhecimentos adquiridos na escola a respeito da grandeza dos reis egípcios na hora de escolher o nome do seu estabelecimento. Não teve dúvidas: batizou o empreendimento de “Faraó” e, na placa da fachada, o popular Garfield, o gato do desenho animado, devidamente paramentado em trajes egípcios.

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