Percalços de um ofício privilegiado

Para os antigos egípcios, o ato de escrever, cujas origens eram por eles desconhecidas, significava bem mais do que o mero registro de um nome, coisa ou pessoa: representava a sua própria criação. Eles atribuíam o desenvolvimento dessa habilidade aos ensinamentos de um deus, Thot, o que tornava os seus práticos – os escribas – seres especiais, possuidores de conhecimentos de caráter divino. Assim, o escriba, ao dominar a escrita, adquiria um poder extraordinário naquela sociedade, pelo valor que nela se conferia à perpetuação, através do registro, de pessoas e fatos significativos. 

A idealização desse ofício já aparece registrada em um texto específico da XIX dinastia, conhecido como “A sátira dos ofícios”, cuja autoria é atribuída a Dua-Khety. A narrativa, que ilustra a preocupação de um pai para com o futuro do filho, ressalva que a profissão do escriba é aquela que promete uma vida melhor; daí por que é enaltecida pelo progenitor.

Em “A sátira dos ofícios”, que tem por cenário a viagem de pai e filho rumo à Escola de Escribas, na qual o garoto vai estudar, o progenitor descreve os diferentes ofícios e esclarece o jovem sobre todos os ofícios e especifica para o jovem todos aqueles disponíveis para ele no antigo Egito, listando os problemas intrínsecos a cada uma dessas várias atividades. Dua Khety elogia as condições de trabalho e refere as recompensas recebidas por aqueles que sabem ler e escrever, salientando sua principal vantagem: “não há profissão sem chefe, exceto a do escriba. Ele é sempre tratado com dignidade por onde quer que vá”. 

Sabe-se que a cópia e a memorização de textos, como a “Sátira dos ofícios”, era parte importante do processo de formação do aprendiz de escrevinhador, cujo início se dava aos quatro anos de idade e só finalizava aos dezesseis. O aprendizado da escrita era lento e servia apenas para expressar uma língua literária, arcaica, diferente da linguagem falada. Os métodos de ensino, de um empirismo sofrido, compreendiam dois ciclos de estudo. O primeiro, consistia na memorização, pela repetição, de listas de hieróglifos, numerados e classificados na categoria, juntamente com os seus significados. Depois, os jovens passavam aos exercícios de cópias de textos religiosos: as rezas a um outro mundo antigo Thot, as Lições de Sabedoria, as máximas de ordem moral, as cartas privadas; e, finalmente, eram iniciados nas práticas de composição. 

Entre os comportamentos que um escriba deveria aprender, salienta-se o hábito da discrição. Dua Khety ensina seu filho a não tomar partido em discussões, a manter distância dos oficiais, a não interromper as pessoas, a não falar de coisas secretas e a afastar-se de desordeiros. Aconselha ainda o garoto a ser moderado nas palavras, a comer e beber pouco, a ouvir mais do que falar e a elogiar os competentes. A rotina dos estudos, que tinha por objetivo a memorização dessas lições pelos aprendizes, era bastante rígida, impedindo o jovem de folgar em dias festivos. Sabe-se disso pelas análises feitas em diversos papiros literários nos quais o aluno anotava, todos os dias, o trabalho que fazia, na maioria exercícios de caligrafia, corrigidos pelo professor: até os signos malfeitos e as faltas de ortografia encontram-se assinalados com tinta vermelha. 

Nem mesmo a valorização conferida pela sociedade ou as lições ministradas ao longo do processo de aprendizado, impediam o escriba de passar pelos percalços da prática profissional . Ao contrário, passado o longo e penoso período de estudos, atingidas as posições mais proeminentes, o escriba chegava então a um estágio da vida em que a vaidade, característica dos que exerciam este ofício, vinha à tona.

Ainda sabe-se muito pouco sobre as origens da profissão de escriba, mas, por meio das descobertas de textos egípcios , sabemos da importância social desse profissional. A ideia de um escriba íntegro, correto, hábil, culto e bem instruído foi suficientemente bem elaborada no Reino Médio a ponto de que, no Reino Novo, indivíduos desejassem ostentar o título de escriba ao final de uma lista de outros títulos profissionais.  Um escriba era alguém inserido nas práticas sociais de comunicação e criação de textos, projetos, monumentos e outros elementos da criatividade que pudessem transmitir a memória da sociedade egípcia. 

Saiba mais sobre os percalços da vida de um escriba!

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