Papiro Anastasi: a carta satírica do escriba dos estábulos reais

Este documento, também conhecido como “Carta satírica”, data provavelmente da XIX dinastia, havendo sido encontrado nas proximidades de Menfis, em Saqqara.Pelo menos 80 ostracas, contendo partes desse texto, foram localizadas em Deir el Medina. O papiro Anastasi registra uma disputa, travada entre dois escribas: Hori, lotado na chefia dos Estábulos Reais, e Amenemope, no posto de Comandante do Exército faraônico. Sob a forma de sátira, ele revela uma faceta inusitada da corte de Ramsés II (1290-1224 a.C.), referindo diferentes aspectos das relações sociais entre colegas, passíveis de serem encontradas naquela sociedade. A expressão dessas relações se manifesta de diferentes maneiras: através do emprego de uma linguagem cuidadosa, tendo por objetivo a difamação dos seus iguais; via um outro mundo antigo apelação às raízes pessoais, estirpe privilegiada de escribas, para humilhação do colega de origem social mais humilde; por meio da acusação explícita de adoção, pelo profissional oponente, de meios ilícitos para o cumprimento de tarefas pessoais que rotineiramente faziam parte de suas atribuições. 

Hori, escriba dos estábulos, por circunstâncias não explicadas na missiva, envia uma carta para Amenemope, na qual ordena ao escriba militar o fornecimento de grãos para os soldados que estão a seu serviço. Amenemope, entretanto, não segue as instruções e responde à epístola com uma missiva que Hori considera agressiva, confusa e mal-escrita. A “Carta polêmica” consiste, então, na réplica de Hori. Claro está que a polêmica entre os dois funcionários pode ser uma trama inventada, com fins didáticos e morais, para cópia e memorização dos estudantes de escriba. Essa alternativa é bem plausível pelo tom severo que perpassa o texto, moralista e didático, características essas presentes em documentos destinados à cópia e memorização. 

Papyrus Anastasi 1 – British Museum: Collection image gallery @britishmuseum

O tom irônico que conduz a narrativa, em alguns momentos, expressa a postura pedante de Hori. Hori ostenta, quando tenta se autopromover, a condição de excelente mestre, indicando-se na terceira pessoa: “tudo que sai de sua boca é mel, suas palavras têm o efeito dos medicamentos que revigoram os corações”. A saudação contida em sua carta é muito longa e revela a erudição do escriba: o conhecimento dos ritos mortuários, dos deuses e dos procedimentos cerimoniais. A presença dessas saudações extensas, nas quais significativos deuses do panteão são convocados a homenagear quem recebe a carta, é traço característico dos textos eruditos dos escribas. Elas são importantes, porque permitem aos escribas a exibição de seus conhecimentos sobre as divindades e a mitologia do antigo Egito. Entretanto, especificamente nessa correspondência, há uma segunda razão para o aparecimento desse trecho: Hori quer mostrar que sabe iniciar corretamente uma missiva e, ao mesmo tempo, evidenciar a rudeza e ignorância de Amenemope sobre as normas dos escribas, comprováveis pela omissão de tais cumprimentos na carta que lhe enviou. Fica claro o caráter didático explícito da missiva quando Hori reclama formalmente que a carta que ele recebeu não possui as saudações iniciais. Hori fala de circunstâncias pessoais vivenciadas no momento em que recebeu a carta de Amenemope. Suas palavras transportam o leitor para o cotidiano do segundo milênio a.C., para um dos palácios de Ramsés II, o que realmente soa como fantástico para o historiador: “A tua carta me alcançou numa hora de repouso, teu mensageiro me encontrou sentado junto aos cavalos que estão aos meus cuidados. Exultei e fiquei contente e me preparei para responder…[…] Entrei no meu alojamento para examinar a tua carta. Entretanto, achei que ela não era de elogios e era de insultos: as tuas frases confundiam isto com aquilo, todas as tuas palavras estavam desconexas e não estavam interligadas…” 

A reação de indignação do escriba palaciano, quando ele toma conhecimento das características da carta recebida é muito humana e familiar a todos, em situações análogas. De imediato, Hori mostra sua revolta frente à falta de consideração e de reconhecimento ao seu trabalho, presentes no texto. A primeira dúvida que levanta é sobre as condições mentais do colega. Sem receio algum, ele denuncia o tom colérico, que impregna o discurso de Amenemope em toda a carta. Hori diz conhecer muito bem a natureza de Amenemope, razão pela qual lança uma pergunta ao interlocutor: “as tuas frases não são doces e não são amargas; tomaste fel misturado com mel; tomaste mosto misturado com vinho?”. Qualificando como descontrolado o discurso de Amenemope, Hori passa a discriminar criteriosamente todos os aspectos da carta que julga passíveis de discussão e crítica pelas improbidades cometidas. Inicialmente, ele acusa Amenemope de não ter escrito sozinho a carta, porque lhe faltaria capacidade para tal feito.

A descrição das razões pelas quais Hori levanta essa suspeita tem um peso importante na narrativa, pois provocam a identificação do leitor com esse julgamento. A catarse acontece de forma dramática, quando ele diz que pode até mesmo visualizar o semblante perturbado de Amenemope. Essa acusação fornece uma dupla informação: a primeira é a de que Hori, de fato, conhece Amenemope; a segunda é a de que a busca de ajuda entre os ajudantes na confecção de relatórios em troca de presentes é uma prática plausível naqueles tempos. Hori diz ao interlocutor: “Teu semblante é perturbado enquanto te levantas enganando os assistentes (?) e dizendo: ‘venham comigo e me dêem uma mão”. Mas, além de acusar Amenemope de suborno, Hori afirma que ele é relapso no exercício de suas funções, pois: (1) as listagens que envia estão todas mal feitas, porque foram organizadas por várias pessoas, o que explica sua falta de conexão; (2) as listagens não contêm o selo do Superintendente do Celeiros, o que se constitui em falta grave, uma vez que o selo é obrigatório, após cada distribuição de grãos, para registrar e oficializar a operação. Tais falhas, inadmissíveis, segundo Hori, são da responsabilidade do escriba a serviço do exército. O escriba das estrebarias reais acusa, ainda, Amenemope de enviar uma mensagem de qualidade inferior para sua posição profissional. Se é difícil discutir a pertinência de todas as críticas, essa não é verificável. A mensagem de Amenemope, se é que existe, não está disponível. Não há como se ter conhecimento de sua aparência ou qualidade literária. Tem-se apenas a informação de Hori de que ela possui quatorze colunas, cada uma delas escrita por uma pessoa diferente. “tua carta é de qualidade inferior demais para se fazer ouvir […]. Tu te precavéns fazendo saber antes […] e dizes: “os [papiros] passam o dia amarrados (?) sobre meus dedos, como livros de fórmulas mágicas (?) no pescoço de um doente…” Hori qualifica os conhecimentos de Amenemope de superficiais, e diz, textualmente: “Chegaste recheado de grandes segredos, recitas uma máxima de Hergedef, mas tu não sabes se ela é boa ou má: que capítulo vem antes dela […]?” Hergedef, filho do rei Queops, é considerado, tal como Imhotep, um dos homens mais sábios do antigo Egito. Hori acusa Amenemope de ignorar sua importância e de, por isso, ter a coragem de se dirigir a ele de forma descortês: “Tu me dizes: ‘não és um escriba e não és um soldado; te apresentas a ti mesmo como um superior: tu não estás na lista’”. Também o acusa de não saber realizar os cálculos necessários para a construção de um lago e de uma rampa. Curiosamente, nesse trecho do texto, um fragmento da longa narrativa e dos dados numéricos, há uma espécie de pausa nas acusações, com o surgimento de algumas frases em outro tom, dessa vez nada belicoso. Ao contrário, Hori parece querer consolar o interlocutor, na suposição de que ele se sentisse enfraquecido com seus desafios: “Eu era incapaz (?) como tu, antigamente. Unamo-nos para discutir juntos porque meu coração era esperto. Meus dedos dóceis e inteligentes quando tu te equivocas. Adianta-te, não chores.” Mas esse possível diálogo rumo a uma situação de cumplicidade é logo deixado de lado, e Hori retorna ao tom acusatório inicial da missiva. Diz ele: “Te escrevi com lealdade (?), e eis que tu a procura para ti. Tu colocas meus dedos no cepo do açougueiro(?), como um touro na festa, a cada festa do […(?)]”.  Na sequência, Hori refere-se às acusações feitas por Amenemope a ele e propõe uma série de desafios para testar o conhecimento do escriba dos exércitos. 

Ao finalizar a leitura dessa narrativa, algumas constatações se impõem. Em primeiro lugar, é mister louvar a atualidade do texto, que comove pela forma sistemática e minuciosa como descreve os elementos físicos e humanos do cotidiano dos trabalhadores intelectuais. Possibilitando interpretações diversas, o texto reacende uma polêmica milenar sobre as situações vividas no contexto restrito de trabalho dos escribas eruditos. Igualmente relevante é a percepção do tom irônico que perpassa a narrativa, marcada pela utilização de estratégias, como a de reductio ad absurdum aspectos da relação humana e a de emprego de metáforas fundadas em elementos muito próximos da cosmovisão contemporânea. Fica evidente, ainda, no texto, a preocupação do narrador em examinar os aspectos psicológicos referentes a pessoas e circunstâncias. Em alguns momentos, Hori preocupa-se em revelar seus próprios sentimentos a esse respeito. Ele pontua principalmente a mágoa provocada pela missiva de Amenemope, que se utiliza de palavras de acusação contra ele. Em outros momentos, o escriba reflete sobre suas origens familiares, sobre a firme orientação que recebeu do pai escriba para fazer a sua formação profissional. Ele atribui a essa relação familiar o seu profissionalismo, o excelente caráter e a competência frente ao oponente. Nesses momentos, o escriba das estrebarias reais parece se compadecer do oponente, mostrando-se comovido com a fraqueza demonstrada pelo escriba dos exércitos. Nesses trechos, Hori entremeia o discurso crítico contra Amenemope com palavras de consolo e de encorajamento. Em nenhum momento, porém, essas passagens generosas atenuam o tom áspero da missiva e o objetivo central da narrativa: mostrar a superioridade pessoal e profissional do escriba das estrebarias sobre o escriba dos exércitos reais. 

2 comentários em “Papiro Anastasi: a carta satírica do escriba dos estábulos reais

  1. Maria de Fátima Fontes Piazza Responder

    Muito interessante este blog!! Elucidativo e divulgador do Antigo Egípcio! Inclusive para neófitos! Parabéns à Professora Margaret Bakos.

    • admin Autor do postResponder

      Muito obrigada, Fátima. Fica sempre nos visitando e dando tua opinião! Grande abraço.

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