O RITMO DA VIDA NO EGITO ANTIGO

Os egípcios antigos marcavam o seu tempo de vida a partir do início do reinado dos Faraós. Quando era importante referir o momento de um acontecimento, eles invariavelmente situavam o fato no ano X do Faraó Y. Por isso, a morte de um Faraó gerava pânico no Egito: era o final da vida que deveria imediatamente recomeçar, com um novo Faraó. O período entre o ritual de osirificação de um Faraó, sua mumificação e preparação para assumir as funções de governante do mundo subterrâneo, e a entronização de um novo, para o papel de Hórus, era de luto e aterrorizante. 

Mumificava-se o rei morto para conservá-lo, pois dele dependia o comando do mais importante acontecimento cíclico do Egito – a enchente do Nilo. Acreditava-se que uma estrela especial participava, juntamente com o Faraó morto, desse fato: a estrela Sothis, cujo parentesco com Osíris era complexo, pois era simultaneamente sua irmã, sua mãe e sua filha. Sothis era importante sinaleira para o início das cheias.  Exatamente na época em que o Nilo começava a ter suas águas engrossadas na nascente, os egípcios observaram o fenômeno do reaparecimento da estrela SÍRIUS, chamada pelos egípcios de SOPDIT, desaparecida há algum tempo do firmamento. Quando ela finalmente ressurgia por um instante na margem leste, logo antes do nascer do sol, tinha início o fenômeno da inundação do Nilo, que se forma do Nilo Azul e Branco, tendo como principal característica a inundação anual, causada pelas chuvas na África central, misturando neve e chuvas das terras altas da Etiópia, tornando-se, para os Egípcios, um deus benéfico.

Os egípcios, que atribuíam a enchente às lágrimas da deusa Isis, passaram a considerar a estrela Sótis como uma manifestação da deusa, tornando-a padroeira dos anos agrícolas novos. Essa ligação entre o início da enchente e a estrela é bem antiga, datando da III Dinastia, mas foi definitivamente registrada no calendário que Ramsés Ill, no Novo Império, foi gravado numa parede externa de templo, em Medinte Habu.

Assim, o primeiro dia do ano coincidia com o primeiro dia do primeiro mês da inundação. O ano oficial agrícola começava no dia do nascer helíaco de Sothis e durava 365 dias, porque os egípcios tinham observado que o mesmo repetia após esse período; acrescentaram, portanto, cinco dias suplementares ao ano de 360 dias, para totalizar o número de 365.

Três divisões, com a duração de quatro meses cada, marcavam o calendário de trabalho egípcio: akhet, inundação; peret, semeadura e colheita; shcmu, seca.

BELMONTE, J. A. The Egyptian Civil Calendar: a Masterpiece to Organize the Cosmos. In: Cosmology Across Cultures. 2009. p. 116.

No final de maio, observava-se o mais baixo nível do rio. Durante o mês de junho, o Nilo, entre o Cairo e Aswan, começava a subir. Uma quantidade de “água verde” aparecia nesse período, em função da quantidade de micro-organismos que caíam em putrefação e desapareciam.

As águas atingiam o Egito por volta de agosto e levavam a inundação ao seu mais alto nível. Durante agosto, as águas do rio subiam rapidamente e adquiriam uma cor marrom-avermelhada, de lama. Tal colorido devia-se à presença da rica terra vermelha trazida para o Nilo, pelo Nilo Azul, e Atbara, ambos nascendo nos altos platôs das montanhas na Etiópia. O quentíssimo verão da África central provocava chuvas torrenciais que aumentavam extraordinariamente o volume de água desses tributários, causando a precipitação em direção ao Mediterrâneo, ao aluvião composto de sedimentos, ricos em minerais. Até o final de setembro, as águas continuavam a subir, permanecendo depois estacionárias por duas ou três semanas. Em outubro, após ligeira elevação, as águas começavam a baixar e, em maio, estavam novamente no seu nível mais baixo.

Até anos recentes, quando a enchente começou a ser controlada, mesmo durante o período de inundação, pela represa de Sudd el-Ali e Aswan e as barragens em Esna, Nag Hammadi, Asyut, e o norte do Cairo, o nível de crescimento durante a inundação parece ter sido aproximadamente o mesmo que foi na antiguidade.

Os registros dos nilômetros mostravam que uma enchente de 6 metros não era suficiente e que a de 9 causava muito dano. O ideal era de 7 a 8 metros, que significava um grande alagamento. Quando as águas voltavam ao seu  leito – em outubro-, a terra ficava coberta com um solo fértil adicional.

O ritmo da vida egípcia era rigorosamente repetido: de fim de julho a meados de novembro, quando o Vale estava inundado, não se faziam trabalhos agrícolas, era o período para a corveia dedicada à construção das edificações monumentais e às expedições ao Sul; era a época ideal para transportar materiais de construção e cargas muito pesadas, como estátuas monumentais, diretamente das jazidas para os Templos e cemitérios. 

De meados de novembro a meados de março, era preciso construir sementeiras e manter as culturas hortícolas; de meados de março a meados de julho, ceifar e preparar a chegada de nova cheia. Semeadores e lavradores operavam ou em conjunto, ou ao contrário da rotina atual: primeiro semeavam, para em seguida lavrar, cobrindo a semente com a terra e não traçando sulcos. Quando as espigas amarelavam, reaparecia o escriba real para conferir a expectativa de colheita e estabelecer a parte que caberia ao Faraó. A ceifa e a debulha representavam um trabalho de tempo integral, durante semanas.

O tempo era, em última instância, determinado pelo Faraó e por diversos elementos da natureza: o sol, a lua, as estrelas, entre as quais, especialmente, Sothis e a Estrela de Manhã. Nesse controle do tempo, era fundamental a participação do homem, através da execução das fainas e rituais, bem como a participação dos animais, no seu monótono relacionamento vital. Essa orquestra de movimentos regia o tempo – o tempo não os controlava. (MERCER, 1957:74)

A humanidade tem o seu cordão umbilical ainda ligado à terra, mas mudou radicalmente o seu pensamento sobre essa relação. Para o homem atual, o ser humano é individualmente todo poderoso, uma concepção diferente da dos antigos egípcios, que viviam como uma espécie e que respeitavam e temiam todas as forças da natureza. Atualmente, estamos provocando e explorando o nosso maior cúmplice na luta pela vida: o cosmos. Convenhamos, os egípcios, nesse aspecto, agiram com mais diplomacia! Seria demasiadamente simplista atribuir seu relacionamento personificado e vigoroso com o habitat unicamente ao estágio de suas forças produtivas. É preciso sublinhar o seu conluio com a natureza e valorizar o seu temor do retorno a um mundo caótico. Em suma, é mister um pouco de humildade histórica: reaprender com os egípcios antigos a amar, respeitar e a bajular a natureza.

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