O obelisco de Makaré Hatsepsut no Templo de Karnak

O texto inscrito no obelisco de Hatsepsut, XVIII Dinastia (1479-1458 a.C), no Templo de Karnak, é extraordinário do ponto de vista da história política na antiguidade, porque apresenta um processo de construção teórica, que, em tom didático, fala do poder de uma mulher do antigo Egito. O episódio narrado é uma invenção, nascida na corte, e registrada pelos escribas de Deir el Medina.

Para melhor entendê-lo, lembra-se que, com a expulsão dos hicsos do Egito, os príncipes de Tebas passaram a reinar com supremacia e a fazer os seus enterramentos nesta região do alto Egito, elevando o deus Amon à condição de uma divindade nacional. O início desse processo deu-se com o Faraó Ahmose (1570-1546 a.C.), príncipe tebano vencedor dos hicsos, que reinou cerca de 25 anos, iniciando a XVIII dinastia. Por falta de um herdeiro homem, como o Egito era uma sociedade matrilinear, ele veio a ser sucedido pelo neto, um jovem militar, filho de sua filha, nascida de sua união com a rainha Ahmose Nefertari. O casal de avós eram, ambos, considerados os patronos de Deir el Medina e, como tal, adorados. O neto e sucessor chamava-se Tuthmosis I.

Templo da Rainha Hatshepsut.
Foto: memphistours.com

A história é relevante porque o filho de Tutmosis I também deixou uma sucessão complicada: seus filhos mais velhos morreram antes dele, e restou apenas um, menor de idade, filho de uma esposa secundária, de origem plebeia, que também foi chamado de Tutmosis. Com a finalidade de legitimar sua posição, a criança, entronada como Tutmosis II, casou com sua meia-irmã Hatsepstut, de origem mais nobre que ele, pois era a filha mais velha de Tutmosis I com a Rainha Ahmose Nefertari.

Tutmosis II, por sua vez, teve um filho com Isis, uma mulher do harém, e desejou indicá-lo antes de morrer como seu herdeiro, com o mesmo nome de nascimento dele e do avô. Entretanto, o herdeiro era apenas uma criança quando subiu ao trono e foi sua madrasta e, ao mesmo tempo, tia, Hatsepsut, a pessoa indicada para ser sua corregente.

Importa ainda informar que Hatsepsut, que se recusou a casar novamente, mas teve filhos com o seu arquiteto, Senenmut, que, provavelmente por sua importante posição e funções, levou os escribas ao registro de uma história fantasiosa: o próprio deus Amon teria engravidado Ahmosis Nefertari e, por tal razão, Hatsepsut, sendo de origem direta divina, teria direito ao governo do Egito, em lugar do jovem Tutimosis.

Essa astúcia permitiu a Hatsepsut usurpar do enteado e sobrinho o mando do Egito por vinte longos anos. Com a morte da rainha, Tutimosis foi entronado, como Tutimosis III. Ele mandou apagar, de todos os monumentos construídos por Hatsepsut, o nome dela. Os avanços da egiptologia, na modernidade, desvelaram, entretanto, essa história através dos indícios deixados nas pedras que sobreviveram e guardaram a memória da mulher que ousou usurpar um trono real.

Em algum momento, enquanto tutelava o futuro Tutimosis III, Hatsepsut abandonou os títulos e insígnias de esposa real de Tutmes II, assumindo a titulação de um faraó. Ela se fez representar nos monumentos, como homem. Para suporte de sua legitimidade como governante, ela mandou construir textos que contavam ter sido ela a escolhida pelo pai para ser sua sucessora e, mais ainda, assim apresentada por ele à corte e a todos os deuses do Egito. Ela também fazia que fosse narrado o mito de seu nascimento divino, representado não só em seu templo mortuário em Tebas, como também em seus obeliscos. Neles, a imagem do deus Amon-Rá é mostrado com a rainha mãe, a rainha Ahmose, seguida pelo seu nascimento. Será que algum escriba leitor dormiu alguma noite preocupado por ter comandado tais inscrições no obelisco?

O fato é que uma coluna de inscrições em hieróglifos foi esculpida nos quatro lados de um obelisco de 30m de altura. O texto, enfatiza quatro pontos: a devoção de Hatsepsut por seu pai divino Amun e pelo terreno Tutmosis I; o valor em ouro investido no monumento; e, finalmente, o seu direito ao trono do Egito por indicação do deus Amon. Referências no masculino e no feminino aparecem para designar a pessoa da rainha: ela é, ao mesmo tempo, o filho e a filha de Amon. Pela sua importância, transcreve-se, a seguir, um trecho do discurso da rainha neste monumento. O texto pode ser lido na íntegra aqui!

Como eu uso a coroa branca,
Como apareço com a coroa vermelha;
Como os dois senhores repartiram (20) repartiram suas porções para mim,
Como eu governo esta terra como o filho de Isis. Como eu sou poderosa como filho de Isis,
Como eu sou poderosa como filho de Nut,
Como Ra descansa no barco noturno,
Como ele predomina no barco matinal,
Como ele associa suas duas mães no no barco divino, Como o céu suporta, e sua criação perdura,
Eu serei eterna como uma imperecível estrela,
Eu descansarei na vida como Atum –
Assim como em relação a esses dois grandes obeliscos, Feitos com eletro por minha majestade por meu pai, Amun,
Em ordem que meu nome possa durar neste templo, Para a eternidade e para sempre.
Eles são cada um deles blocos de duro granito,
Sem, sem fendas, sem juntura entre eles.
Que alguém que ouça possa dizer,
‘É uma basófia, “O que eu disse”;
Pelo contrário dizer, “Isto é próprio dela,
Ela é devotada a seu pai!”
Veja, o deus me conhece bem,
Amun, Senhor do Trono das Duas Terras;
Ele me fez governar (30) a Terra Preta e aTerra Vermelha como recompensa,
Ninguém se rebela contra mim em todas as terras. Todas as terras estrangeiras são submetidas a mim. Ele colocou minhas fronteiras nos limites do céu.
O que Aton cinge trabalha para mim.
Ele deu-lhe isto que veio dele,
Sabendo disso eu vou governar por ele.
Eu sou sua filha na verdadeira verdade.
Aquele que serve ele, que sabe o que ele ordena. Minha recompensa de meu pai é vida-estabilidade-lei. No trono de Horus sobre todos os que vivem, eternamente, como Ra.

Lichteim p.27-29 v.II
(Tradução livre de MMBakos)

Na genealogia do poder de Hatsepsut, emerge a competência do escriba como o criador de palavras, condição que caracteriza a função de escriba leitor, desenvolvida juntamente com o poder do faraó. O mito de Hatsepsut conta uma história sagrada, que se passou em um determinado período histórico (1498-1483 a.C.). Sua criação foi obra de funcionários reais altamente qualificados no domínio da escrita. Esse mito político, como os modernos, é fabulação, embora ele também exerça uma função explicativa, “fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos” (GIRARDET,1987: 13)  Por esse mito, pode-se compreender a desditosa saga da família dos Tutimosis. É mister notar ainda, que ela mobiliza os escribas e esses as pessoas que circulavam no Templo de Karnak, algumas capazes de ler em voz alta esse texto, veiculando-o em tom profético.

O fato de Hatsepsut ter conseguido apresentar uma interpretação, com poder explicativo, objetivamente irrecusável do real de seu contexto, permitiu que uma mulher governasse em nome do deus Amon, uma plêiade de nobres e plebeus por vinte anos. E, mais ainda: a construção de um templo mortuário fabuloso em Deir el Bahari; o envio de uma expedição à terra de Punt que trouxe riquezas fabulosas ao Egito, deixando o tesouro cheio para seu sucessor iniciar a fase mais belicosa do antigo Egito. Como é fato sabido, Tutimosis III é conhecido na egiptologia como o Napoleão Bonaparte do Novo Reino!

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1 comentário em “O obelisco de Makaré Hatsepsut no Templo de Karnak

  1. Marina Fernandes Lopez Responder

    Livro : O pilar de Osíris

    Primeiro romance da professora e egiptóloga Margaret Marchiori Bakos .
    Narra a história de Dhutmose, escriba da Tumba, e de sua família na cidade de Deir el Medina. Enfatizando os costumes, regras , leis e outras informações no Egito Antigo, e ambientado no período de reinado do Faraó Ramsés III.
    A obra é primorosa em detalhes da literatura egípcia, termos linguísticos e informações históricas.
    Nos mostra como as mulheres exerciam um papel importante na sociedade egípcia através da personagem Merit. Estudavam , eram influentes, diferentemente das mulheres de outros povos na mesma época .
    A narrativa é agradável e envolvente; a cada capítulo aprende-se um termo ” novo” da época, e muito sobre o dia-a-dia dos egípcios como seus hábitos alimentares, sua justiça, convivência, suas vestimentas, e seus deuses que tinham total influência nestadmirável civilização .
    A professora Margareth Bakos nos ” transporta” ao Egito antigo com seu conhecimento, talento e criatividade para vivenciar nas páginas de sua obra a vida na vila dos trabalhadores de Deir el Medina. É uma linda viagem literária ao fascinante Egito dos grandes Faraós!

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