O Cotidiano dos Operários Faraônicos

Na linguagem comum, o termo cotidiano significa “o que se faz ou sucede todos os dias”.  

Ao longo da História Nova, foram formuladas maneiras de pensar, de narrar e de explicar uma sociedade, com base em pesquisa de cunho histórico, na busca do cotidiano. Muitas pesquisas desenvolvidas sobre o Egito Antigo, a partir daí, trouxeram inúmeras e diferentes visões sobre o que seria o cotidiano na­quela civilização.

Agnes Heller, filósofa húngara e considerada uma das mais brilhan­tes colaboradoras de Lukács, tem pautado sua atividade intelectual no estudo das relações entre a ética e a vida social. Nas palavras da autora a vida, cotidiana é, antes de mais nada, a vida de todo homem:

“Todos a vivem, sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificar­-se com sua atividade humano-genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por mais ‘insubstancial’ que seja, que viva tão somente na cotidianidade, em­bora essa o absorva preponderantemente”. (HELLER: 1970.17)

A vida cotidiana, seguindo o raciocínio de Heller, é heterogênea, tendo como partes orgânicas os lazeres, o descanso, a atividade social sistemati­zada, o intercâmbio, a purificação e naturalmente a organização do traba­lho e da vida privada.

As fontes para falar sobre o cotidiano do operário faraônico, em Deir el Medina, à luz de tais questões, são diversas, ricas e incontáveis. Elas vêm aparecendo desde o século XVII, quando o Padre Claude Sicard ( 1677- 1726) redescobriu a Vila de Tebas, a atual Luxor dos árabes. Ele mostrou o caminho para muitos outros viajantes aventureiros, como Richard Pococke ( 1704-1765), que visitou, as tumbas do Vale dos Reis e referiu, pela pri­meira vez, o templo Ptolomaico existente nas cercanias da então, coberta de areia, vila de Deir el Medina.

Entre os anos de 1811 e 1815, o sítio de Deir el Medina foi descober­to e sua exploração iniciada. Com a vinda da Missão Arqueológica Francesa (1880-81), depois transformada em Instituto Francês de Arqueologia Oriental, e com a equi­pe inglesa criadora de “A Egypt Exploration Society”, desenvolveram-se novos métodos de exploração arqueológica, os quais passaram a valorizar pequenos elementos, antes desprezados, nas escavações, como cerâmicas, pedras, amuletos, utensílios.

Cerca de 1500 ostraca já foram publicadas, com anotações e cartas pessoais. tão numerosas que já constituem um gênero, não literário, pró­prio. Tais fontes já foram exauscivarncnte analisadas. por muitos egiptó­logos, à luz. de diferentes questionamentos. como, por exemplo, os livros de Madeleine de la Monica, “Les class ouvrier sous les pharaons“, e Jaroslav Cerny , “Community of workmen“.

Através de sua correspondência, o trabalhador de Deir el Medina, escreveu em torno da dialética entre o ser e o Ler, o dizer e o fazer; a circu­lação e o intercâmbio de palavras. Ele revelou, na correspondência, o seu sentido de identidade pessoal e com o seu contexto. O conhecimento e a percepção dos entendimentos distintos pode, através do diálogo, encontrar parcelas comuns de significados e de pensamentos, em “uma viagem de ida e volta, onde um não é senão o outro, onde os demais são um todo.” (FERRER: 1994, p. 29)

Através dos inúmeros documentos que sobreviveram em Deir el Medina, possuímos atualmente muitas experiências sentidas. Entendemos que o homem – em todas as épocas – na sua cotidianidade, foi, ao mes­mo tempo, um ser particular, com sentimentos pessoais, e um ser genérico no desempenho dos papéis sociais. Análises históricas, sob tal ótica, corroboram a ideia de que nenhum homem é capaz de atuar de tal forma que se torne um exemplo universal. Seremos sempre humanos e limitados nas nossas atitudes e realizações, a despeito da magnitude de nossa ambição.

Segundo Martha Robles, “as palavras são um ponto de partida para um universo de símbolos, de imagens e de significados que, em seu conjun­to, assinalam aquilo que os homens têm por sagrado em sua existência”. (FERRER: 1994, 58)

Sabedores de que não há leitura ingênua, não buscamos simplesmente reconstruir o passado e, sim, reconstruir experiências vividas, sentimentos expressos. Leia o trabalho completo e mergulhe no fascinante cotidiano de Deir el Medina.

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