O aeroporto de Aldo Locatelli

Margaret Bakos

Uma parentela viajante e um pai que tinha uma relação fraternal com o seu Ford 51, sempre pronto para juntar os filhos e passear, foram os cúmplices de minha paixão pela pintura de Aldo Locatelli. É claro que (eu) também curtia o sorvete delicioso que eu ganhava em cada visita ao aeroporto.

O prédio me parecia grandioso e a pintura de Locatelli majestosa, vibrante e anestesiante. Eu ficava horas admirando todos os detalhes. A mãe se preocupava:

–  Margaret! Cuida! Vai pingar sorvete no teu vestido novo.

Era difícil tirar os olhos daquele quadro tão forte, onde se sentia o peso de um relato histórico, tanto prospectívo quanto antigo, no terminal do Aeroporto Salgado Filho. Além do painel fazer parte da minha memória infanto-juvenil, a obra com o título de (“) A Conquista do Espaço(”),  pintada por Aldo Locatelli, em parceria com os outros dois artistas italianos, Emílio Sessa e Attilio Pisoni, criou, para mim, uma base sólida e inesquecível sobre o valor do pincel manejado com maestria. Como alguém me explicou, bem mais tarde, com cinquenta (50) metros quadrados e finalizada em 1953, a obra fazia referências à história da aeronáutica, retratando desde Leonardo da Vinci, que no século 15 projetou uma máquina voadora, a Santos Dumont, conhecido no Brasil, acertadamente, como Pai da Aviação.

Abismada, eu ficava olhando aquele homem forte, uniformizado, cuja história desconhecia (,) à época; as engrenagens tão fabulosas ao seu dispor; a figura daquele velho barbudo que, em falta de apresentação, considerei a imagem da sabedoria. No chão, jazia Ícaro que, soube depois, duvidou da sabedoria paterna e desafiou os deuses da natureza. A visão dos corpos em rodopio me remetia à vida tumultuada que eu filtrava, no meu dia-a-dia, com uma ingenuidade misturada com curiosidade e apimentada por uma filosofia infantil: 

Por que a vida é luta renhida?

Sim, ir ao aeroporto era como ir a uma festa. Era preciso vestir a roupa e os sapatos melhores que a gente tinha. Meu pai tinha uns sapatos de verniz, (que era) em preto e branco, que eu adorava. Minha mãe tinha uns (sapato) de salto alto, pretos, que ela raramente usava, mas me fascinavam sempre que eu ia ao aeroporto. (nova linha) 

Isto que falo aconteceu há muito tempo. O fato é que, até a pouco, ainda se usava o aeroporto pequeno. Até que se construiu o grandão. E aí se demoliu a pracinha que ficava em frente dele em uma espécie de rótula, se não me falha a memória.

Senti tremendamente a demolição da pracinha. Acho que foi o maior choque da minha juventude porque na praça havia um monumento em homenagem ao comandante Carlos Ruhl, da saudosa VARIG. Apaixonado pela aviação, gostava de voar em planadores e era homem de confiança de Ruben Berta, o mais importante presidente que a empresa (Varig) teve. O comandante Ruhl foi destacado instrutor de segurança de voo e de formação de pilotos. Ironicamente, morreu em São Paulo, em 1954, num acidente aéreo.
  Eu conhecia este senhor, sua esposa e os dois filhos, maiores que eu, que frequentavam as mesmas festinhas (,) no meu bairro. Uma das minhas amigas era apaixonada pelo seu filho mais velho. Foi uma perda para todos nós.

Desde essa demolição, me atrapalham os pensamentos sobre o que é permanente e transitório nesta vida. Como se avalia o carinho e a lembrança dos monumentos, cruzando suas imagens com um passado maléfico. Mas, por profissão, defendo a permanência dos traços do homem onde ele passa. Ou se pode, assim, impunemente, cortar a memória das pessoas e fatos de uma cidade, país?

  O aeroporto, onde se chega e se voa de Porto Alegre, foi armazenado na minha memória junto com a pintura de Aldo Locatelli. É impossível ir lá, sem mentalizar a obra!

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