No meio do caminho tinha uma pedra

Uma das obras-primas de autoria do escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade é o poema No Meio do Caminho.  Os versos, publicados em 1928, abordam os obstáculos (pedras) que as pessoas encontram na vida.  O poema foi profundamente criticado pela sua simplicidade e repetição. Com o passar do tempo, os versos foram sendo compreendidos pelo público e pela crítica e atualmente No meio do caminho é uma das obras mais reconhecidas do autor. 

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra…”

Neste poema, “pedra” pode ser interpretado figurativamente como dificuldades ou algo marcante e “caminho” como vida. A pedra no meio do caminho de Drummond, portanto, é algo que está na ordem do imprevisível. Assim como a pedra encontrada em 15 de julho de 1799 por trabalhadores franceses no Egito. 

No início do século XIX, os estudos sobre o  Antigo Egito foram reavivados, no continente europeu, pela expedição napoleônica iniciada em 1798. A expedição militar possuía uma comissão formada de eruditos organizada com o intuito de coletar informações em todos os campos do saber sobre o Egito Antigo e Moderno. 

Foi  na cidade de Roseta (El Rashid, em árabe), que a expedição militar e científica de Napoleão encontraria a Pedra de Roseta. No meio do caminho do soldado francês Pierre-François Bouchard, integrante da expedição francesa ao Egito, estava o bloco de quase 760 quilos com 114 centímetros de comprimento, 75,7 cm de largura e 28,4 cm de espessura. 

Tratava-se de uma peça com especificidades singulares , pois trazia um mesmo texto escrito em três escritas distintas: duas partes em egípcio, sendo 14 linhas em escrita hieroglífica,  e 32 linhas em escrita demótica, e a terceira parte com 53 linhas em escrita grega. 

A Pedra de Roseta logo despertou grande interesse pela possibilidade de conter uma tradução da antiga língua egípcia, até então nunca decifrada. Vários estudiosos e cientistas receberam transcrições dos textos presentes em sua superfície. Foi em 1822 que Jean-François Champollion anunciou a decifração dos textos egípcios. Jean-François Champollion tornou-se um nome eternamente ligado a Pedra de Roseta pelo fato de ter sido de sua autoria a decifração dos hieróglifos não apenas contidos na estela, mas da própria escrita hieroglífica egípcia. 

Traduzida, a pedra se revelou ser um decreto promulgado e escrito em 196 a.C., na cidade de Mênfis, em nome do rei Ptolemeu V, , um dos últimos governantes gregos do Egito. 

Excerto do Decreto de Mênfis

Os sumos sacerdotes e profetas […] e todos os outros sacerdotes que vieram de todos os santuários do país a Mênfis ao encontro do rei, […] declararam: […] o rei Ptolemeu […] tem sido um benfeitor para com os templos e para aqueles que aí habitam, como também para todos aqueles que são seus súbditos; […] se mostrou benfeitor e consagrou aos santuários receitas em dinheiro e em trigo e tem suportado muitos gastos para conduzir o Egipto à tranquilidade e para assegurar o culto; e que tem sido generoso utilizando todas as suas forças; e que, das receitas e impostos cobrados no Egipto, tem suprimido alguns e aligeirado outros para que o povo e todos pudessem prosperar sob o seu reinado; e que tem suprimido as inúmeras contribuições dos habitantes do Egipto e do resto do seu reino destinadas ao rei, por mais consideráveis que fossem […] e que depois de inquirir tem renovado os mais honoráveis dos templos, sob o seu reinado, como é devido; em recompensa por isto, os deuses têm-lhe dado saúde, vitória e poder e todas as outras coisas, e a coroa deve permanecer propriedade sua e dos seus filhos, para sempre. COM SORTE PROPÍCIA, foi decidido pelos sacerdotes de todos os santuários do país que devem ser enormemente aumentadas as honras rendidas ao rei Ptolemeu, o Imortal, o amado de Ptah, o deus Epifânio Eucaristo […]; que se erga em cada santuário, no lugar mais proeminente, uma imagem do rei imortal, Ptolemeu, deus Epifânio Eucaristo, imagem que levará o nome de Ptolemeu, defensor do Egipto, junto da qual deverá ficar o deus principal do santuário, entregando-lhe a arma da vitória, segundo o modo egípcio […]

Trad. J. Candeias Sales e Helena do Carmo Manuelito (2007). Feita a partir de trad. para o inglês, de Carol Andrews (1983)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.