Nereidas, sereias malvadas

Margaret M. Bakos


Fonte das Nereidas, Madri, Espanha

Qual a diferença entre nereidas e sereias? Perguntou a menininha, de cabelos loiros, fininhos, atados por uma fita vermelha, sentada na primeira fila.

Dona Rita, despertada de um sono curto, no calorzinho do sol que a banhava, debruçada no peitoril da janela que olhava o mar que se estendia azul na sua frente,  acordou completamente.  Do sonho que a levara da terra ao mar, onde tivera o seu único e tórrido amor, quando tinha apenas quinze anos, estremeceu! Pôs-se de pé, num súbito. Onde estava? Quem perguntou? Qual foi mesmo a pergunta? Os questionamentos foram quase gritados a uma vintena de garotinhas sonolentas, na sala, que abriram os olhos e, de pé, miravam direto na d. Rita.

A menininha, de cabelos loiros, fininhos, atados por uma fita vermelha, também se levantou da cadeira, meio trêmula, talvez de medo, porque Dona Rita era uma mulher muito alta, muito gorda e seu vozeirão, ultrapassava o corredor, mesmo com a porta fechada. Muitas pessoas, na escola, reclamavam, desde a Direção até a faxineira. Diziam que ela tinha uma voz invasiva, que era ouvida nas outras classes e perturbava, porque o som entrava por baixo das portas. E, até mesmo, na limpeza dos corredores, silenciosamente varridos pela dona Celestina, o vozeirão da dona Rita atrapalhava. Senão fosse isto, outra coisa, de qualquer maneira, alguma coisa fizera a menina tremer.

 – Fui eu, dona Rita, conseguiu balbuciar a menininha, mexendo a cabeça, o que balançava levemente o rabinho de cabelos loiros fininhos, mal presos pela fita vermelha.

 Dona Rita respondeu: 

–  Sereia é uma figura da mitologia, uma mulher com corpo de peixe, que serviu para personificar aspectos do mar ou dos perigos que ele representa;

– Nereidas eram as cinquenta filhas de Nereu e Dóris. Ambos compartilhavam as águas do Mar Egeu.

Mas vieram mais duas outras questões, por parte da menininha:

–  Porque ela fez mal ao homem?

–  Havia uma sereia e as nereidas eram em número de cinquenta?  

Dona Rita se aborreceu com o tom com que foram formuladas as questões, que lhe parecia contestador.

Era sensível com o que ouvia. E, do fundo da sala, onde inspecionava melhor todo o ambiente, ela caminhou até a menina, que encontrou ajoelhada com as mãos em posição de reza.

– Que pose é essa, garota? Gritou dona Rita!

– A menina loirinha mudou de posição. Ela levantou os braços e esticou, ao máximo, as mãozinhas, como se fosse mergulhar no mar.

Dona Rita perguntou de novo:

– E que outra pose é essa, garota?

Agora, todos na aula olhavam, em pé, para a menininha,

Dona Rita sentiu uma indignação crescente com o que ocorria. Mandou todas sentarem. Todas obedeceram, menos a menininha loira. 

Na sala começaram a chegar os cheiros do almoço, que seria servido no refeitório  ao meio dia. Apurou o nariz:  seu olfato era ótimo. Era cheiro de molho de tomate, com certeza. E haveria massa, Hum…! Mas o tempero estava muito carregado na cebola e no alho. Havia, também, um tempero forte, tipo zimbro…

 Dona Rita tinha uma vida dedicada ao ensino desde que se formara na Faculdade de Educação há mais de trinta anos. Curtia as refeições naquela Escola. Adorava os alunos também. Nunca sofrera um enfrentamento como esse e logo vindo daquela menininha que sempre lhe parecera muito boa aluna. Ficou pensando no conto que dera para as alunas lerem. Uma colega dela havia lhe interrogado:

– Achas o conto bom para as menininhas tão jovens?

Dona Rita argumentara que a autora do texto era muito boa: Marguerite Yourcenar Foi a primeira mulher a ser indicada para a Academia Francesa, um baluarte masculino desde sua fundação. Cochicham as boas línguas que a decisão final veio de Giscard d’Estaing, o Presidente da República.

Na verdade, as Nereidas, de alguma forma, pareciam que tinham realmente feito mal ao jovem, rico e encantador, personagem do conto. Do encontro com elas, o jovem voltou perturbado. As Nereidas fizeram o jovem insensato conhecer um mundo feminino totalmente diferente das moças da ilha. Ofertaram-lhe a embriaguez do desconhecido, a fadiga do milagre, a malignidade resplandecente da felicidade. Ele tornou-se mendigo e perambula pela região. Os camponeses supõem que ele jamais envelhecerá, murchará sem que se saiba sua idade….

Na repetição da história, que ela já tinha lido, a colega da d. Irene – dona Genecy – balançou a cabeça e ficou convencida do erro da escolha: o conto não era para meninas!

Enquanto dona Rita pensava na discussão pedagógica com a colega de tantos anos, que era toda certinha, andava de terninho e sapato alto todo o dia, bateu na calça de linhão que usava, para tirar o pó de giz. Viu que os pés, vestidos por uma sandália, de tiras largas, quase masculina, estavam também sujos de pó de giz colorido, mas deixou assim mesmo.

A menininha tinha levantado de novo e estava na posição de pular na água novamente.

 Dona Rita ia falar qualquer coisa, mas a menininha saiu em corrida em direção à janela, o rabinho de cabelo pulando, tentando se libertar da fitinha vermelha. De lá, ela gritou:

– Minha bisa, minha vó e minha mãe são nereidas. Nenhuma me contou nada disso que a senhora falou. Rápida ela subiu no parapeito e pulou.

Todos correram à janela a tempo de a verem nadando em direção a uma minúscula ilha, cujo nome, todas sabiam: “Retiro das Nereidas”.

 Dona. Rita, com planos de falar com colega pedagoga logo mais, pensando em sugerir que ela lesse Homero, para se informar melhor sobre o texto, gritou para as alunas:

– Terminem logo com o tema. O mar está ótimo para um mergulho, antes do almoço.

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