Mito de criação de Mênfis

Mênfis é o nome grego para a cidade de Men-nefer, que em língua egípcia, significa Muros Brancos. A povoação, criada pela Dinastia thinita, era por tradição, o local de coroação do rei, desde a unificação dos dois Egitos. A cerimônia acontecia no templo de Ptha, onde também ocorria o festival de Sed, realizado sempre que o monarca completasse o 30º aniversário no poder. 

A posição de destaque de Mênfis, entre as cidades egípcias, foi alcançada por articulações políticas feitas no período protodinástico, ou seja, antes de 3.000 a.C., época em que os sacerdotes de Ptah buscaram dar ao seu deus o mais alto lugar no panteão nacional. Assim foi criado o mito que construiu a imagem do deus Ptah, cujo o nome significa Ta-Tenen – aquele que emergiu da terra – o verdadeiro artífice do universo.

Nessa narrativa, foi o deus Ptah quem iniciou a vida, pois era o ser que existia antes de tudo, no seio do Nun, o oceano primordial. Ele manifestou sua atividade criadora por meio de oito formas, que eram as partes constitutivas de sua essência divina. Essas entidades produziram a flor-lotus – Nefertem – no meio do qual ele apareceu sob a forma de Atum, o deus que representa a ideia de totalidade. Foi através do deus Atum, que Ptah criou Hórus, Thot e todos os outros deuses que formaram, assim, a Enéade de Mênfis. De acordo com o mito menfita, todos os deuses eram meras funções de Ptah, de seu coração e língua.

O mito de criação de Mênfis foi, entre todos, o que mais se aproximou de um sistema filosófico, por manifestar preocupação com o surgimento de todas as coisas e projetar a gênese de tudo à onisciência do deus Ptah. Essa divindade criou o mundo pela palavra. A história, em síntese, narra que Ptah, por meio de seu coração – sia – e sua língua – hu– que respectivamente representam o conhecimento e a palavra, personificados e deificados – foi o idealizador de todas as coisas. Pelo conhecimento, concebeu a ideia do universo; pela palavra, realizou a sua materialização.  

Não havia a intenção dos sacerdotes de Mênfis de ameaçar a posição da elite de Heliópolis, mas apenas de assimilar a enéade divina por eles criada mostrando a verdadeira liderança de Ptah que, de tão importante, teve sua autoridade reconhecida pelo próprio Atum, o demiurgo de Heliópolis. Ptah teria saído das águas primordiais, em seu aspecto masculino e feminino (Ptah-Nun e Ptah-Naunet), produziu Atum, com seu coração e língua, criou a enéade, manifestações do deus supremo Ptah. Esse deus usou os serviços de Hórus e Thot para completar a sua criação do universo.

O importante nessa narrativa é a referência ao papel dos sentidos: a visão, o olfato, o tato e a audição foram criados pela enéade sob a forma de Ptah. Nessa “orquestra”de poderes divinos, todos os deuses locais, recolhidos pelos escribas de outras famílias divinas, tornaram-se os “músicos”, sob a regência de Ptah, grande “maestro cósmico”. A divindade ganhou então uma família: a Sekhmet, mulher representada por uma figura feminina com a cabeça de leoa; Nefertem, o filho, também representado com cabeça de fera, mas fundamentalmente por um lótus azul cujo nome traz a noção de perfeição.  

O mito de Ptah, criado por volta de 3.000 a.C, tornou-se conhecido através de uma versão feita na XXV Dinastia – Núbia–, conhecida como a Pedra de Shabaka.  O faraó Núbio, que ordenou essa compilação do mito, ao resgatar a história, contribuiu à sua disponibilização e perpetuação. 


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Fatos e mitos do antigo Egito

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