Meu personagem na janela

Margaret Marchiori Bakos

Pilar Oviedo usava um conjunto azul-escuro de corte reto e sapatos pretos de salto alto. O cabelo tinha sido ajeitado em coque, e uma corrente fina de ouro aparecia pelo amplo decote. Ela sentou, silenciosamente, na sala lotada de escritores ambiciosos em busca de fama. Chegar até ali fora difícil e precisou mostrar documentos com a autorização do Governo Espanhol para entrar na sala de reuniões do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, de Madri. Este Museu que faz parte, junto com o Museu do Prado e o Thyssen-Bornemisza, do Triângulo das Artes, contém diversas de Salvador Dali.

 Pilar viajara de Buenos Aires para esta reunião, por convite da Comissão formada por membros do “Triangulo das Artes” em Homenagem ao centenário de nascimento do célebre pintor catalão, com verba da Argentina. Mas, ao menos, eles pagavam sua hospedagem, nos arredores de Madri, onde os selecionados ganhariam, acomodações individuais e três refeições diárias, ao longo de quinze dias, para escrever um artigo. 

Tempos difíceis, queixava-se Pilar, na Universidade, buscando verba para as passagens. Entretanto, o prêmio e o tema eram tentadores. O estudo visava que os experts em artes analisassem as emoções de Salvador Dali, presentes nas suas obras. O Prêmio: quinze mil euros. Todos sabem que as interpretações das obras de Dali podiam ser inúmeras, porque o surrealismo raramente entrega as emoções dos seus artistas e o caminho do pintor fora lentamente nesta direção. Pilar pensava em trabalhar com outras fases de Dali. 

Os inúmeros artigos de análise semiótica e de semântica sobre a arte do Mestre Catalão, que Pilar vinha escrevendo, há mais de quarenta anos, tornaram o seu nome adequado para escolha da Comissão. No próprio vôo, atravessando o Atlântico, ela se consolava da péssima comida à bordo, pensando na honra que seria para a Argentina, caso ela se destacasse.

Pilar adorava mais que a Dali, sua mulher, musa inspiradora, empreendedora e figura social de destaque: Elena Ivanovna Diakonova, de família russa de intelectuais. Ela já tinha forte vínculo com o movimento do surrealismo, quando  conheceu Dali, em 1929. Entre as frases que  melhor descrevem a relação duradoura de Gala com o pintor encontram-se as palavras da memória dela, em um livro  escrito por sua irmã, Lidia: 

 “Gala cuida de Dalí como se ele fosse uma criança: lê para ele antes de dormir, o obriga a tomar os remédios necessários, analisa seus pesadelos e, com uma infinita paciência, combate a sua desconfiança. Dalí joga um relógio em uma visita e Gala corre até ele com um calmante. Deus queira que ela não tenha um ataque por causa dele”

A circulação pelos Museus do ‘Triangulo das Artes” era livre para o seleto grupo de  críticos de arte escolhidos, vindos de diversas partes do mundo. Pilar, ao  percorrer o museu, encontrou vários conhecidos, mas evitou conversinhas, com receio de fofocas, que a distraíssem da sua tarefa: a escolha da pintura para a sua análise.

Foi no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, que Pilar se perdeu de todos os pesquisadores e se sentiu sozinha no Museu. O que prendeu sua atenção foi um quadro à óleo, pintado em 1925, quatro anos antes de Salvador Dali conhecer Gala, com dimensões modestas perto de muitas obras do pintor que que ela, para sua surpresa, desconhecia.

 Nesta composição, intitulada  “Figura na Janela”, Dalí centraliza sua irmã Ana María Dalí, modelo de muitas de suas obras. Ela se encontra de costas, diante de uma janela, cuja abertura dava de frente para o mar, em Cadaqués.

Menina na Janela
Pintura de Salvador Dalí

Primeiro, Pilar admirou a menina mulher e imaginou o que ela pensaria, estática, olhando aquela paisagem linda, tendo as costas o irmão, pintor já admirado e festejado por muita gente. Seriam os irmãos camaradas e amigos? Ana Maria ajudou a escolher sua pose na cena? Teria sonhos compartidos com o irmão sobre este local? Janelas são os olhos da alma’, dito este, atribuído a Leonardo Da Vinci e outros mais jorravam na mente fértil da argentina.  E Pilar, sacudia a cabeça para evitar influências.

Voltou às aparências:  No quadro, “tudo denota movimento: os vincos nas cortinas feitos pelo vento, assim como os ondulados do vestido da moça, os cachos de seus cabelos, a toalha branca no parapeito da janela e o mar encapelado. Ao fundo está o povoado, que se faz presente através de seu reflexo no vidro da janela aberta para dentro da casa, à direita.  Um barquinho à vela singra o mar, próximo ao povoado”.

          Ela afastou seu olhar da moça na janela para o seu entorno. Era forte este apelo e queria evitar se deter demasiado tempo nele também, mas aí a história “pegou” Pilar, a ‘sacudiu’ e a  fez recordar. Até mesmo lacrimejar. Seu primeiro flerte fora neste lugar.

          Cadaqués é um município da Espanha na província de Girona, comunidade autónoma da Catalunha, que Pilar conheceu em uma viagem com os pais, quando era adolescente. Os parentes que foram visitar, posteriormente, se mudaram dali para Segóvia. Ela se apaixonara pelo lugar e pelo rapaz que ali conheceu. Estranhamente, ela nunca quis casar e sempre queria voltar a Cadaqués, mas isto nunca aconteceu. E ele nem sequer respondeu a sua carta.

 Pilar estava encantada com a emoção da descoberta da terna “Figura na janela” e começou a entender o princípio da experiência onde fora incluída, à revelia. As pinturas como os livros terminam por se entregar aos admiradores, mas é preciso tempo e vontade para isto. Se sentiu mais próxima a Salvador Dali, pela primeira vez.

Na verdade, a renomada crítica de arte se sentiu fisgada, por uma ‘pista’ sobre Dali, que, se perdeu, no tempo, ou melhor foi escondida pelo surrealismo: essa sua relação fraterna. Gala fora sensível, sentiu o menino frágil, dez anos mais moço que ela, que jamais saiu de dentro do homem genioso, que ela conquistou. Entretanto, quem pode saber quantas coisa ela também abafou no ego daquele menino, quando ela o levou para o surrealismo?

 Voltou para o Hotel, para tomar um banho e se arrumar, bem coquete, para jantar em um restaurante, que conhecia perto da Plaza Mayor, para comer ‘chipírones a la plancha” e ‘pimientos de Padrón”, acompanhados do vinho tinto da Galícia, em jarra. Pobre moça na janela. Teria que esperar pelo seu texto. Pilar, finalmente, reconhecia: comer bem era a sua maior virtude e defeito.

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