JOGOS E LAZER NO EGITO ANTIGO

Os egípcios antigos tinham as suas horas de lazer e até criaram uma expressão, na escrita hieroglífica, para denominar divertimento: S-x-m-x. De diversas maneiras, em jogos quietos ou nos muito agitados, explicitamente homenageando um deus ou em atitudes descontraídas, os antigos egípcios demonstraram que era preciso, em certos momentos, deixar o trabalho de lado e divertir-se. 

Talvez, fosse impossível, nessas horas de lazer, isolar das explicações mitológicas, os atos. Logo encontramos uma primeira relação entre a visão mitológica e os divertimentos cotidianos no Egito Antigo: a referência à deusa Hathor. Seu epíteto a qualifica explicitamente como a deidade de todos os prazeres. A segunda, é a presença do ritmo mítico nas brincadeiras, visível por alguns traços comuns a todas, como os gestos repetitivos e a participação dos deuses e da magia.

Nós conhecemos sobre esportes e jogos no antigo Egito não necessariamente porque eles amavam essas atividades mais que os outros povos, mas porque mais textos e representações delas foram preservados no vale do Nilo.  Conheça alguns desses jogos:

JOGOS DE MESA

Senet

Compondo inúmeras cenas pintadas em tumbas, aparece a imagem de um jogo de mesa conhecido como senet. A Rainha Nefertari, um leão e um carneiro (no Papiro Satírico), são algumas dentre as várias imagens de jogadores que nos chegaram, daqueles tempos. Segundo as fontes, o senet, cujo nome significa o jogo das “passagens”, era acessível a nobres e plebeus. Para a brincadeira tanto podia ser utilizada uma bela peça retangular de madeira, incrustada com pedras ou outros materiais preciosos, como uma. simples grade riscada, nesse feitio, em uma pedra comum do chão. O tabuleiro devia ser dividido em três colunas e, estas, em dez, às vezes onze “casas”. O jogo era para duas pessoas, apenas. O objetivo consistia em mover as peças, conhecidas como “dançarinos”, pelo tabuleiro, antes que o adversário pudesse terminar, (cada jogador tinha o mesmo número de peças, geralmente sete, diferenciadas pela cor ou pelo formato). Isto era conseguido bloqueando o adversário e passando-o . O número de casas ou de quadrados a avançar, por vez, era determinado pelo lançamento de um osso (astrágalo) ou por algumas hastes marcadas. Os últimos cinco quadrados tinham marcas especiais. Se um jogador chegasse a uma casa cujo símbolo significava beleza ou poder, era premiado. Não se devia cair com as peças a quatro quadrados do final, pois aterrissar na “casa das águas”, ou na “casa do azar”, significava se “afogar” e, talvez, voltar para o começo. O quadrado anterior era chamado de “bom” ou de “casa boa”. Os quadrados subsequentes tinham os numerais 3 e 2, respectivamente, referindo-se ao número de casas até o final. 

Embora tenha começado como um simples passatempo, o Senet desenvolveu, ao final do Novo Reino, um rico significado alegórico. Um contendor, em princípio, deveria pensar que nao jogava contra o seu oponente humano, mas contra o Destino, por ele simbolizado. (Freed, 1981, p. 54). Osiris, o deus do mundo subterrâneo, era o juiz, que concedia imortalidade ao vencedor do jogo, cujo significado era tão grande que revestia a vitória de uma atmosfera de bom augúrio.

Diferentemente dos jogos modernos, empregados apenas para recreação, muitos jogos da antiguidade tinham uma função religiosa. Por exemplo, jogar o Senet era considerado uma atividade que simbolizava a derrota do mal, na pessoa do perdedor, e o renascer na outra vida, na pessoa do jogador vitorioso.

O jogo da serpente

Em uso somente no decorrer do Velho Reino, era um jogo para muitas pessoas, o nome Egípcio mhn (cobra circular) e derivado da superfície de um tabuleiro sobre a qual a cobra era usualmente representada. O corpo da cobra estava tão enrolado sobre a cabeça que a cauda se projetava para fora. O corpo estava dividido em três seções que podiam ser interpretadas como o campo do jogo. Seis leões estavam dispostos ao lado de seis bolas. Outras representações nos permitem suspeitar que as bolas tivessem sido seguradas nas mãos, de forma  que a jogada poderia ser determinada por meio de adivinhação (por exemplo: quantas bolas alguém tem na mão? – avançam-se tantas casas). Os leões então eram movidos, pois serviam como pedras para jogar. Entretanto, não podemos excluir a possibilidade de que pauzinhos jogados tivessem a mesma função em outras versões do jogo. No próprio Egito, o jogo não mais se registra após o Velho Reino, mas ainda era jogado em Chipre, no 20 milênio a.C. No vale do Nilo, a cobra enrolada que dava nome ao jogo foi mais tarde associada ao jogo de Senet. De acordo com um texto, o morto jogou contra a cobra. Ele ganhou e jogou o réptil em um banhado. O sentido do jogo era provavelmente o de que o defunto se protegesse, dessa maneira, contra a mordida de serpentes venenosas. Essa conjectura é confirmada, segundo Decker, no Livro dos Mortos. Por outro lado, na XIX dinastia, consoante o mesmo autor, a cobra tornou- se um tipo de santo patrono do Senet. Parece que, de forma levemente alterada, o jogo da cobra ainda é jogado pelos árabes de Cordofan. 

O jogo das bolas de gude

Há razões para se pensar que o jogo das bolas de gude, em que seis bolas eram usadas, foi um desdobramento do jogo da cobra. De acordo com E. B. hsch, esse jogo exigia duas habilidades: destreza e adivinhação. O objetivo era atingido pela determinação correta do número de bolas, que o oponente transferia rapidamente de uma mão para a outra. O jogador que adivinhasse corretamente o número recebia as bolas como premiação.

Você pode ler essas e outras curiosidades no livro :

Fatos e mitos do antigo Egito

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