HISTORIOGRAFIA DO CONTO DO NÁUFRAGO

O Conto do Náufrago foi escrito no  Primeiro  Período  Intermediário  (2181-2040  a.C.). O título foi dado posteriormente, pois dificilmente os egípcios davam nomes para os seus textos. Embora, possivelmente, tenha sido copiado por muitos aprendizes de escribas, conhecemos apenas um único manuscrito com o conto em questão, o papiro Ermitage 1115, atualmente na coleção do Museu Pushkin, em Moscou. 

Existem quatro artigos, redigidos em língua portuguesa, que examinam o Conto  do  náufrago. As quatro publicações apresentadas na sequência abordam o texto egípcio sob diferentes perspectivas. 

O texto de Ciro Flamarion Cardoso, intitulado Escrita, sistema canônico e literatura do antigo Egito, surpreendeu e emocionou o meio acadêmico brasileiro. Cardoso registrou, em hieroglifos e em português, o Conto do náufrago, popularizando no país uma tradução erudita da língua egípcia sobre o tema. Em seu artigo, contendo a análise de dois textos clássicos da literatura egípcia, Cardoso examina inúmeras questões relativas ao contexto político, militar e econômico do antigo Egito, destacando a diferença de tratamento conferida pelos escribas egípcios. 

O  autor  recupera  a  história  do Papiro  Ermitage 1115,  relacionando-a  com  as primeiras narrativas orais.  Em seu trabalho, Cardoso apresenta uma análise bastante cuidadosa e didática da estrutura do conto em estudo, destacando sua extrema sofisticação no que concerne à sintaxe narrativa. Segundo Cardoso, o conto articula “uma história, dentro de outra história, configurando três  sequências  narrativas  de  importância  e  desenvolvimento  desiguais”  (CARDOSO, 1998, p. 137).

Dando prosseguimento ao levantamento das publicações sobre o tema, registra-se o aparecimento, em 2006, do artigo de trinta páginas O  conto  do  náufrago.  Papiro  Ermitage 1115 , de autoria de Brancaglion Jr., diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que não contém a tradução em hieroglifos. Brancaglion Jr. inicia seu texto afirmando que o Conto do náufrago já fora objeto de um grande número de estudos e traduções que levantam questões bastante interessantes, das quais ele se propõe a fazer uma breve síntese.

O autor destaca que se tem atribuído ao conto uma origem folclórica devido à sua narrativa direta eivada com frequentes repetições, de expressões cotidianas e mesmo de passagens inteiras já conhecidas, bem como a presença de personagens não nomeadas, o que o torna semelhante àqueles relatos de tradição oral. Contudo, o uso no texto da primeira pessoa não faz parte da forma tradicional de tratamento das narrativas folclóricas ou míticas.

Brancaglion sugere que o conto seria uma narrativa complexa, com referências cósmicas, colocando o náufrago como um viajante no tempo e no espaço, em contato com o deus primordial Atum-Rê na forma demiúrgica de uma serpente, que apresenta uma visão moral do fim do mundo. Da mesma forma, a ilha seria o próprio mundo cercado pelo Oceano Primordial, e a filha mais jovem da serpente, Maat.

Na  perspectiva  do  autor,  o Conto  do  náufrago  emprega  alguns  termos  cujos sentidos permanecem ainda indefinidos. Um deles diz respeito à denominação Grande verde, identificado por alguns egiptólogos com o Mar Mediterrâneo e, por outros, com o Mar Vermelho. Mas, talvez, a expressão faça referência a um grande volume de águas, podendo dizer respeito a qualquer um desses mares, ou mesmo ao rio Nilo. Uma outra discussão diz respeito à localização de Punt, do qual a serpente é o senhor. Atualmente, denomina-se Punt a região que vai da costa do Sudão e Eritréia até o interior, em direção ao Nilo e ao rio Atbara. Entretanto, no Conto do náufrago, como em outros textos, Punt parece simplesmente fazer referência às terras situadas ao sul do Egito. Também a denominação Ilha do Ká atualiza algumas questões interessantes. O conceito  de  ká, bastante conhecido pelos egiptólogos, traduz sentidos de força  vital  e  energia criadora supra-individual e invisível, que nasce com o homem e o sustenta durante a vida e após a morte. Ir a seu ká significa morrer e unir-se aos ancestrais. Essas idéias fizeram com que a expressão fosse interpretada como ilha  fantasma, na qual habitavam os espíritos dos bem-aventurados. Não se pode, contudo, descartar a possibilidade de se tratar de uma ilha fantástica, um local exuberante e paradisíaco, onde a vida e as riquezas seriam abundantes.

Em 2011, Catarina Almeida, professora na Universidade de Lisboa, publicou um texto de nove páginas, intitulado O  conto  do  náufrago  dos  antigos  egípcios:  notas  de  leitura sobre um estudo português do início do século XX, com o objetivo – palavras dela – “de revisitar um ensaio do início do século XX, produzido por Francisco Esteves Pereira”.

O  trabalho  analisado  por  Catarina,  intitulado O  náufrago:  conto  egypcio,  foi publicado no número 48 da Revista do Instituto da Universidade de Coimbra, em 1901. Segundo Almeida (2011, p. 248), Francisco Esteves Pereira, estudioso de hebraico, árabe e sânscrito, especializou-se em etíope, havendo produzido notáveis pesquisas até sua morte, em 1924. Assim, a partir de seus estudos autodidatas e de contatos nos meios orientalistas, ele traduziu o conto O náufrago, caracterizando seu autor como um escriba de linguagem clara, simples, mas muito elegante. 

Francisco Esteves Pereira (1901) inicia a apresentação da narrativa do náufrago, destacando a notável preocupação de seu autor com a geografia e com a etnografia. Citando Golenischeff, responsável pela condução do papiro ao Museu Hermitage e por sua apresentação em um fórum de orientalistas, em 1880, Esteves Pereira (1901, p. 72) afirma que a narrativa foi adotada e vulgarizada pelos gregos na Odisseia, e pelos árabes nas Mil e uma noites. 

Ele  identifica  o  texto  do  conto  como  pertencente  à  XII  dinastia.  Já  quanto  à localização da ilha da Ká, conforme Catarina Almeida (2011, p. 250), ele compartilha com Maspero a posição de que “a idéia da ilha de Ká como uma espécie de ilha afortunada”. Esteves  Pereira  (1901,  p.  76),  na  esteira  de  Golenischeff,  aposta  na  existência de uma narrativa ainda mais antiga que teria dado origem ao Conto  do  náufrago,e, posteriormente, à Odisséia e à Primeira viagem de Sindbad.

Ao articular esses povos, permite entrever o esteio etnocêntrico de uma perspectiva de evolução única e de progresso contínuo, segundo Campos Matos, tendo a Europa como centro, que faz deslocar o pêndulo do argumento para os eventuais contatos com Fenícios, entendidos por Pereira Neves, no parágrafo de abertura, como um dos povos mais célebres da antiguidade. Portanto, o texto Egípcio torna-se por esta via de súbito interesse para a História do comércio, que se constituía como o grande motor econômico do mundo europeu colonial. De fato, parece haver uma maior preocupação em justificar o Punt como a sede dos fenícios do que em procurar compreender a civilização egípcia em si.

O conto do náufrago. Um olhar sobre o Império Médio Egípcio, de Telo Ferreira Canhão, propõe-se  a  realizar  uma  análise  dos  dados históricos e geográficos referidos no conto, da imagética geográfica de enquadramento do naufrágio e de sua plausibilidade histórica.  O texto de Canhão, investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investe na definição do conceito da expressão Grande  verde. Trata-se de uma análise de caráter hermenêutico que se concentra na figura da serpente e na catástrofe que ela própria, a serpente deus, relata ter sido vítima, referência que equivale a um naufrágio cósmico ou metafísico, que havia atingido seu grupo familiar.

O conto, na opinião de Canhão , fala de um traço marcante no relacionamento entre  as  pessoas  daquela  época,  fortemente  assinalado  no  texto:  a  relevância  da capacidade de ouvir.  Segundo Canhão , que cita Assmann (1999), a narrativa enfatiza que “um homem, para viver bem, depende de uma boa escuta”. Ainda sobre as relações interpessoais, o autor confere destaque ao pedido da serpente para o náufrago na hora da partida: “Faz um bom nome na tua cidade! Olha, é (tudo) o que peço que faças por mim”. 

Canhão ressalta também a possibilidade de se analisar o caráter esotérico do conto, que evoca uma realidade na qual se misturam o real e o fantástico, na tentativa de defender e justificar a crença na onipotência do demiurgo, frente à presença do mal no mundo. São suas palavras: “Acima de tudo, considere-se que neste tema teremos sempre presentes as palavras de Hornung: é possível ocupar-nos do esoterismo cientificamente!” (CANHÃO, 2012, p. 72).

Para finalizar, fixa sua atenção na maneira como o texto traduz a visão do escriba Ymenáa, filho de Imeny, que assina o conto, mas sobre o qual nenhum dos pesquisadores conseguiu indicar a origem – quem era ou de onde vinha. O filho de Imeny, não obstante, deixa bem marcada sua simpatia pelos habitantes de Punt, representados pela serpente mágica. Ela, apesar de não ser humana, recebeu o náufrago com muita humanidade.

O conto surpreende quem lê hoje, assim como o fez em tempos distantes. Como se pode perceber, a leitura pode ser feita em diferentes níveis de interpretação, ficando essa na dependência dos sentidos a ele atribuídos pelo leitor em contato com o texto. Por isso, convidamos todos a ler a tradução do Conto do náufrago para o português feita por Ciro Flamarion Cardoso.

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