HIEROGLIFOS E ARTE: DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA

Existem diversas razões para conhecer os hieróglifos, quando o tema é o antigo Egito. A primeira delas diz respeito ao seu valor como fonte histórica privilegiada, tornando acessível a análise dos egípcios antigos, tal como é feita por eles próprios. A segunda razão é de cunho estético e refere à natureza da escrita hieroglífica que, utiliza signos tomados de empréstimo de seu contexto de criação, o que, de certa forma, instiga e aumenta a magia desses signos milenares. 

Os hieróglifos, em princípio, são signos icônicos, imagens dotadas simultaneamente de uma força metonímica e metafórica, característica que lhes confere o poder de transportar, via decodificação, seus intérpretes atuais ao imaginário dos antigos escribas. Os hieróglifos têm, por vezes, o objetivo de mostrar uma coisa, ao mesmo tempo que dizem de outra. Os escribas antigos sabiam como lidar com essa condição que todos os signos possuem de remeterem a diferentes sentidos, mas isto se perdeu, ao longo da história das conquistas sofridas pelo Egito.

Dessa forma, abordar o Egito antigo via decifração das metáforas contidas nos hieroglifos é um modo distinto, desafiador e divertido de se chegar ao passado da humanidade, aos egípcios e a seus contemporâneos, os mesopotâmicos, os fenícios, os cretenses, os hebreus e outras centenas de tribos nômades africanas, indo européias e orientais, modo esse que se assemelha àquele dos viajantes que buscam, transpondo espaços, chegar a algum lugar distante.

A paleta de Narmer

A paleta de Narmer é o mais antigo objeto encontrado a apresentar procedimentos da comunicação escrita, que, a partir de então, estão presentes ao longo de toda a história do Egito. A paleta de Narmer relata a forma como foi obtida a unidade entre o alto e o baixo Egito com vistas a gravar as vitórias do faraó sobre os inimigos.

Assim, a paleta de Narmer é, ao mesmo tempo, o primeiro registro em hieróglifos, e um exemplar único de obra de arte como mensagem de cunho histórico. Ela exibe figuras humanas grandiosas feitas para evidenciar suas posições de comando. No caso, essas figuras referem o faraó, marcando sua soberania, em relação a outras imagens, cuja pequenez e postura indicam a submissão dos inimigos vencidos. Acompanhando essas imagens, aparecem, na paleta, os primeiros registros em hieróglifos de que se tem conhecimento.

Os egípcios antigos acreditam que a escrita tenha sido ensinada aos homens por um deus: Thot, que, adotado pelos gregos, recebe o nome de Hermes e torna-se símbolo de tudo o que implica astúcia, ardil e trapaça. Se os egípcios consideram sua escrita mágica, os gregos ajudam a manter esse sentido com o termo hieróglifo, que significa escrita sagrada.

A história das escritas egípcias é fascinante pela sua transformação, de pictográfica – os hieróglifos -, em duas escritas cursivas: a hierática, demótica e, finalmente, a cóptica, primeira escrita alfabética, construída com caracteres gregos e sinais da demótica. Isso demonstra a existência, no antigo Egito, de um processo de economia de ação, de início imperceptível, como notamos que acontece nos blogs atualmente demonstráveis pelas imagens e grafia encobertas dos emoticons. Tal como a que acompanha esses ícones, as cursivas Egípcias antigas, são escritas que, como véus, se sobrepõem às anteriores, formando um vocabulário, que, em princípio, é para domínio de todos, mas termina por se tornar, para muitos, um código indecifrável. 

Inexiste uma história do Egito antigo sem a consulta às fontes grafadas pelos hieróglifos; porém, nas análises de cunho historiográfico sobre o mundo antigo, no entanto, mormente se acusam os antigos egípcios de só terem deixado registros históricos fragmentados e breves. Em contrapartida, por motivos semelhantes, será que os blogs atuais poderão ser desprezados como fontes históricas do 3° milênio? 

Leia mais sobre os mistérios da escrita egípcia aqui!

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