FAVERSANI,F. A pobreza no “Satyricon”de Petrônio. OuroPreto:UFOP,1998

Resenha de Margaret Marchiori Bakos para a Revista Phoinix, Rio de Janeiro, 6: 360-366, 2000. 365

Pertenço a uma geração que, no segundo grau, não foi iniciada nem na língua, nem na literatura latina. Assim, conheci Satyricon, de Petrônio, pelo filme de Frederico Fellini. Mais tarde, descobri o Satyricon em prosa e verso. Naquela ocasião, fascinei-me mais pelos aspectos grotescos, sádicos e fantasiosos do romance do que pelos nexos possíveis entre o texto e o contexto de sua criação: o Império Romano.

Voltar a ler Satyricon, a partir dos questionamentos de Fábio Faversani, foi uma experiência muito rica. Faversani explica que seu objeto é a compreensão sobre os livres pobres de Roma e suas relações diretas com os de poder, à época do Principado. Ele resume sua hipótese de pesquisa em uma questão: as posições sociais são determináveis pela posição dos agentes nas relações de poder?   O autor dividiu a exposição textual da pesquisa, sob a forma de livro, em uma introdução, uma conclusão e três capítulos, intitulados como segue: o Satyricon; Relações de Poder e Análise da Pobreza e Relações de Poder no Satyricon. 

A história de Petrônio é vivenciada por três jovens – Encólpio, Ascilto, Gitão junto com o velho poeta – Eumolpos – que peregrinam por cidades pequenas da Itália Meridional. A primeira parte acontece em Puteoli ou outra localidade próxima a Nápoles. A segunda parte se passa na casa de um liberto milionário: a cena Trimalchionis. A terceira acontece próximo ao mar, talvez no Golfo de Nápoles. A quarta se desenrola no caminho de Crotona e a quinta e última parte acontece nessa cidadezinha.

Faversani esclarece que Petrônio tomou a realidade como fonte de motivos, mas a apresentou recriada de forma cômica através dos personagens, que concentram características comuns a grupos de indivíduos. A ironia da narrativa petroniana é alcançada através de dois mecanismos: a redutio ad absurdum, isto é, o exagero de componentes da realidade em níveis máximos, e a penetração psicológica, através da qual cada personagem descreve a si mesmo.  Tais qualificações, segundo Faversani, impedem um consenso sobre o gênero literário petroniano, o qual para alguns é uma sátira menipéia em função da composição do texto em prosa e verso e do seu caráter satírico. Para outros, o Satyricon seria uma coleção de mimos, próxima, assim, da tradição teatral clássica, ou uma paródia aos épicos, como a Odisséia, e, ainda, Satyricon recebe qualificação mais sólida, na opinião de Faversani: quando é apontado como um romance composto, forma literária original à época, pelo que se sabe.

No segundo capítulo, Faversani trata dos aspectos teórico-metodológicos das relações diretas de poder. No terceiro, formado por densas sessenta páginas, Faversani discrimina os protagonistas do Satyricon, e analisa o livro à luz de quatro episódios: o Episódio de Quartilla); Viagem a Crotona; Farsa de Crotona; Cena Trimalchionis. Na leitura de Faversani, as estratégias básicas de sobrevivência dos protagonistas se constituíam basicamente na aproximação com os poderosos e no exercício da farsa.

Faversani explica que o uso repetido do mecanismo literário da revelação, por Petrônio, através do qual ele informa aos poucos o grau de envolvimento que os principais personagens têm uns com os outros, imprime um ritmo angustiante às relações entre ricos e pobres que beira a histeria, neste episódio.  Fábio Faversani conclui a análise da pobreza em Satyricon com satisfação. Ele afirma que essa leitura o auxiliou a compreender os romanos do Principado. Afirma que sua hipótese inicial confirmou-se: a posição social de cada um dos personagens de Petrônio mostrou-se determinável pela inserção em determinada rede de relações de poder, que não são, apanágio das elites. Isso significa, finalmente, que se um agente é pobre em função de sua inserção em determinada rede de relações de poder, a qual em princípio é dinâmica, pode deixar de o ser.  Com essa mensagem esperançosa, Faversani reafirma a intenção de, em sua prática acadêmica, construir uma visão do passado a serviço da transformação da injusta sociedade brasileira. Pela tenacidade metodológica e erudito conteúdo, a leitura do livro é altamente recomendável.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *