Estelas votivas de Deir el Medina – Estela nº 50062

As estelas são, em síntese, um monólito, em geral de pedra calcária, no qual está esculpida, em relevo, a imagem do dono da tumba em que ela foi colocada. O morto aparece fazendo oferendas a um deus, acompanhado por fórmulas apropriadas de encaminhamento e cortesia, em que seu nome e seus títulos são citados. As inscrições são geralmente gravadas em oco, isto é, escavadas. Em alguns casos, há um cômputo das atividades do morto. As estelas são, usualmente, de natureza funerária, votiva, comemorativa, ou servem como preliminares a um processo, embora essas quatro categorias sejam, muitas vezes, sobrepostas.

As mais antigas estelas encontradas foram em cemitérios da 1ª e 2ª dinastias, mas tornam-se mais frequentes no início do Médio Reino, continuando em uso por muito tempo. Ficavam localizadas no ponto mais alto das capelas de oferendas, sendo erguidas e encostadas a um muro e/ou ajustadas às paredes. Com um topo geralmente arredondado, diferenciavam-se de outro tipo de painel que simulava a “falsa porta”, uma representação característica do Antigo Reino, que, aliás, jamais foi descartada completamente. Existem estelas funerárias às centenas, espalhadas por museus do mundo inteiro, mas, como informa Georges Posener, em tom de brincadeira, essas velhas pedras faraônicas ou são muito belas, ou são patéticas, podendo algumas delas ser consideradas até mesmo banais.

Robins constatou que, do Reino Médio (2040-1782 a.C.) em diante, pessoas privadas podiam colocar estelas votivas e estátuas nos interiores dos templos, com o objetivo de estabelecer um elo entre o indivíduo e o templo. Muitas dessas estátuas, em formas variadas, sobreviveram. Entre os tipos mais comuns, encontram-se estátuas sentadas, em blocos, ajoelhadas ou em pé, portando estandartes. Como os donos dos templos, em geral, eram homens, elas podem ser incluídas na série de estátuas dedicadas pelos homens. Entretanto, as mulheres, como os homens, também podiam erigir estelas votivas em templos. Essas estelas adotavam frequentemente fórmulas padronizadas: fazendo uma prece, beijando o solo antes dele, e outras. 

Das 24 estelas encontradas na região da esfinge, em Giza, 20 eram dedicadas por homens sozinhos e nenhuma por uma mulher. Da mesma forma, de 17 estelas votivas oriundas do templo de Ptah, em Mênfis, 11 eram dedicadas por homens e apenas duas por mulheres. Robins contou as figuras representadas: 25 eram de homens e 7 de mulheres, sendo que as mulheres com estelas votivas eram chamadas, às vezes, de senhoras da casa, e outras, de músicas. Tratava-se, portanto, de uma elite, que contava com um homem para pagar o monumento.

Robins informa que os homens preferiam dedicar estelas votivas às divindades femininas, também favoritas em Deir el Medina, segundo Tosi e Roccati. A mais cultuada era, sem dúvida, Mertseger, a serpente, que habitava as montanhas, de onde vigiava o vale de Deir el Medina. Daí ser um de seus epítetos Aquela do cume do Ocidente, e gozava de grande prestígio na área das necrópoles. Era representada tanto por uma cobra enrodilhada como por uma cobra antropomorfa, com corpo feminino de cuja cabeça se projetava uma carapaça de cobra.

Mertseger também aparece referida nos rituais como aquela que ama o silêncio: a deusa era tida como justiceira; dizia-se que castigava com a cegueira ou com picadas venenosas os trabalhadores que cometessem crimes ou juramentos falsos. Mas a população acreditava também que Mertseger poderia agir como um leão buliçoso que curava as pessoas, quando convencido de seu arrependimento. A deusa foi caindo no esquecimento à medida que a vila foi sendo abandonada, a partir da XXI dinastia.

Proveniência: Deir el Medina. Coleção Drovetti
Datação: dinastia XX
Material: pedra calcárea, dimensões: m. alt. 0,43; m. larg. O,28
Técnica: incisão ad incavo, execução segura, mas não muito acurada
Colore: inexistente
Conservação: ótima, conservação da pedra na base
Estrutura: frontão arqueado, cena única
Descrição: a deusa Mertseger, configurada com corpo feminino e testa de serpente, precede a deusa Tawret, representada com face e corpo de hipopótamo ereto sobre as patas posteriores. Ambas as deusas portam acomodados no modio que sustenta os cornos da vaca e o disco solar. Mertseger porta o cetro was e o símbolo anh.

Texto: Hieróglifos – A cena é delimitada por uma linha horizontal de hieróglifos.

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Texto: Hieróglifos –Que fez o substituto na Sede da Verdade Hai justificado, o filho do escriba Amennakht, seu filho Nebnefer.

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Prosopografia: Que fez o substituto na Sede da Verdade Hai justificado, o filho do escriba Amennakht, seu filho Nebnefer.

A deusa Mertseger, que divide com Ptah o santuário do vale das rainhas: trata-se de uma divindade possivelmente originária das entidades funerárias, evocadas nos muros das tumbas do vale dos reis. Identificada notadamente com a cúpula tebana, ela tornou-se, por essência, a protetora de Deir el Medina, a quem os habitantes recorriam em busca de ajuda, homenageando-a publicamente com a edificação de um incrível número de monumentos, e, privadamente, com santuários com imagens suas no seio de seus lares. Ela foi a única divindade para quem as oferendas em trigo foram sistematicamente reservadas sobre o montante global de rações distribuídas no reino de Ramsés IX. Seus avatares são múltiplos: vaca, leão, esfinge, mas, principalmente, serpente.

Para concluir, é importante ainda fazer uma referência aos hieróglifos pela sua relevante função na epigrafia. Seu valor como fonte histórica privilegiada, torna acessível a análise da vila dos egípcios antigos tal como é por eles próprios descrita, ao invés de examiná-la via olhar de seus dominadores, especialmente os gregos e os romanos, como foi feito até o século XIX.   A escrita hieroglífica que, em lugar de letras, se utiliza de signos tomados por empréstimo de seu contexto de criação, o que, de certa forma, instiga e aumenta a magia desses signos milenares. Trata-se da mais bela forma já inventada de grafar uma linguagem falada: por haverem sido registrados em inscrições harmoniosas e em cores, alguns desses textos ainda permanecem.

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