Diálogos egípcios com o futuro

Desde o início deste 3° milênio, estudo a vida do escriba Dhutmose, que viveu no decorrer da XXI dinastia, em Vila de Deir el Medina, usando como fontes primordiais suas cartas, traduzidas e transliteradas dos hieróglifos. 

Recentemente, fiquei bastante fascinada pela história dos hieróglifos a partir de um filme, relatado por Heloisa Seixas sobre uma menina que sabia soletrar (SEIXAS, 2007). A garota, que ganhava todos os concursos dos quais participava, contou à mãe o seu segredo: fechava os olhos na hora de soletrar e via as palavras ganharem forma em sua mente; era, assim, a própria palavra que sussurrava para ela suas sílabas, uma por uma. Por isso, a menina não errava nunca! – conta a narradora da história:

“Essa idéia de palavra materializada – tornada algo quase humano
– ficou na minha cabeça. A palavra desenhando-se a si mesma,
designando-se (designar,design), sílabas e sons se juntando como
um objeto. Mais: a palavra é tão importante na minha vida que a
encaro como algo palpável, ao alcance da mão. Ela é minha
matéria- prima, meu sustento, meu lazer e minha salvação. É,
sobretudo,meu principal elo com o mundo.A mim ela se
apresentou de três formas- a palavra contada, a palavra lida, a
palavra escrita – sempre de uma maneira encantatória, quase
sobrenatural” (SEIXAS, 2007, p. 50).

A reflexão de Seixas despertou minha curiosidade pelo modo como se configuraria o processo criativo de um escriba leitor, a quem, pela competência, os faraós atribuíam o dever e o direito de criar palavras no antigo Egito. Enquanto, à imensa maioria dos escribas, às vezes, na base da chibatada, cabia apenas memorizar e repetir o que o sacerdote leitor havia inventado, o escriba leitor devia buscar imagens para traduzir as palavras que comporiam os textos narrativos, poéticos, dramáticos e/ou românticos que eles relatavam. Estudar as cartas de Dhutmose, que manejava com destreza a escrita vernacular para profissionais e familiares, tornou-se, a partir de então, um desafio maior a ser enfrentado.

Desde o surgimento dos primeiros signos, ao redor de 3.000 a.C, até a sua proibição pelos romanos, no século IV d.C, foram criados cerca de 6.000 hieroglifos. A cada novo fato, descoberta e/ou necessidade de grafar, os escribas leitores inventavam novos hieróglifos. E ai deles se estivessem desatualizados e desconhecessem as novas palavras: cabia-lhes então a perda do cargo e a desonra social, extensiva à sua família;

Muitas críticas foram feitas ao uso da escrita, em especial aos hieróglifos. E um dos críticos mais ferozes, pasmem, foi ninguém menos que Platão. Em Fedro, o sábio grego, aluno de Sócrates, mestre de Aristóteles, dizia que os helenos, ao adotarem a escrita, estariam imitando um deus louco e egípcio: Thot. Dizia Platão: 

“Tal coisa tornará os homens esauecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos,

só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos.”

(PLATÃO,2002:119)

Ledo engano! Os egípcios propunham uma forma de grafar que articula lógica e imaginação humanas, tão interessante e perfeita que hoje voltou à moda. Os hieróglifos, tal com os e-moticons, sinais de trânsito e logotipos da atualidade movimentam o mundo econômico: rendem milhões às agências de publicidade e, ao mesmo tempo, orientam procedimentos de milhares de pessoas em seus cotidianos.

Neste campo, principalmente, se destaca, no Brasil, o pioneirismo de Ciro Flamarion Cardoso, ao apontar a importância do estudo dessa escrita, em uma abordagem precursora, de cunho semiótico, dotando de seriedade seu contato e conhecimento dos egípcios antigos. Esse posicionamento aparece expresso em inúmeros artigos e livros seus, que compõem, seguramente, as melhores fontes, no país, para quem se interesse pela antiguidade oriental. Ele chama a atenção para o interesse manifesto pela história da escrita.

Christophe Barbotin (Museu do Louvre) afirmou, ao reclassificar os escritos antigos em cinco categorias: textos memoriais, culturais, viáticos, documentários e literários, salientando que os primeiros estabelecem um diálogo permanente com o futuro, porque pedem aos leitores que leiam as suas mensagens. Por essa razão, tais textos auxiliam, na atualidade, a melhor compreender a vida das pessoas no Egito antigo; informam sobre fatos administrativos e aspectos peculiares da organização social no Egito antigo. Assim, em alguns casos de revisão historiográfica, as autobiografias aparecem como fontes históricas decisivas para a formulação de novos questionamentos sobre o passado egípcio.

Conheça mais sobre os estudos de Ciro Flamarion Cardoso neste artigo!

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