Deuses do Antigo Egito: uma visita a Jaroslav Cerný

Jaroslav Šerný nasceu no dia 22 de agosto de 1898, em Pilsen, na região da Bohemia, na Austro-Hungria. Seu pai era um funcionário do serviço de correios; da mãe, nada se sabe, exceto que teve outro filho, além de Cerny. 

Estudou desde 1917, na Charles University em Praga, onde conquistou o seu doutorado em 1929.  Viajou, pela primeira vez para o Egito, em 1925, quando começou sua longa amizade com Bernard Bruyère  (1879-1971) e seu amor pelo trabalho de decifração das ostrakas (pequenos fragmentos de cerâmica usados pelos escribas antigos.) , em Deir el Medina, o foco de seus estudos para o resto de sua vida, por mais de meio século. 

Foi para Inglaterra, em 1946, onde foi professor de Egiptologia no University College, e, de 1951 até 1965, professor de Egiptologia na Oxford University. A sua especialidade era o hierático, o Novo Reino e a Literatura antiga egípcia. Morreu em 29 de maio de 1970, em Oxford, Inglaterra.

Entre as obras mais importantes de Jaroslav Šerný estão  “A late Egyptian Grammar”, que teve três edições e “A community of workmen at Thebes in the Ramesside Period”, que é, sem dúvida, o melhor livro sobre a Vila de Deir el Medina, na ótica do cotidiano. 

Para mostrar o olhar de Cerny com a religião e os deuses do Antigo Egito e divulgar o livro Ancient Egyptian Religion simulei uma entrevista com o autor para, com suas palavras, dialogar informalmente com o leitor. Escrito em 1952 e ainda pouco conhecido no Brasil, Ancient Egyptian Religion é  até hoje leitura obrigatória para todos os estudiosos de egiptologia. 

Havia uma religião nos tempos Paleolíticos?

Ao longo dos tempos pré-históricos “inexiste uma religião inspirada na emoção”, porque escrever é o único meio de o homem expressar seus sentimentos. Nenhum outro produto da cultura humana pode testemunhar a elaboração de crenças religiosas”. (1951, p. 13)

Nos tempos pré-históricos egípcios, ou seja, anteriores a 3200 a.C., encontram-se os períodos chamados de Tasiano, Badariano e Nagadiano; do rei “Escorpião”, seguidos do período protodinástico (3200 a 2800 a.C.). Na primeira fase há homens estabelecidos em comunidades próximas ao rio Nilo e há, além de vestígios de agricultura e de armas, uma maior evidência de crenças religiosas que vem das tumbas nos cemitérios (1951, p. 14). 

Quando começam a surgir evidências dos deuses egípcios?

Há evidências de culto a animais, nesses períodos anteriores, porque foram encontrados cemitérios de chacais, touros, carneiros e gazelas cuidadosamente enrolados em esteiras ou lençóis (1951, p. 17), ainda da fase da civilização Badariana, anterior à Nagada. Uma série de paletas cerimoniais e bastões de comando dos finais do período pré histórico e inícios da época dinástica mostram isto em relevos representativos de fatos históricos ou semi-históricos (1951, p. 17).

No início, surge uma hoste de deuses. Gradualmente, com a escrita, as fontes começam a se multiplicar e eles podem se distinguir uns dos outros pelos seus nomes, festivais e localidades de onde eram provenientes, ou seus cultos. Além dessas características externas, é difícil determinar suas naturezas singulares. As fontes do Velho Reino são silenciosas sobre isto, então, elas devem ser buscadas em datas menos antigas, ainda assim tão precoces como o final da Vª Dinastia (2580-2440 a.C.), quando informações valiosas são supridas pelos “Textos das Pirâmides”.

Como você caracteriza o papel desses primeiros deuses?

Eles foram “frutos de uma intrínseca e forte união entre política e individualismo religioso, que apareceram de mãos dadas nos tempos pré-históricos” (1951, p. 19). Cada localidade tinha os seus deuses com seus nomes próprios. A divindade local era “o deus da cidade” e ele figurava nas inscrições como a maior autoridade reconhecida pelos seus habitantes: o senhor absoluto da cidade. 

“É impossível fazer o esboço de uma pintura ou crença com uma lógica uniforme e todos os detalhes válidos para o Egito como um todo, porque tal crença uniforme não existe” (1951, p. 39). A religião egípcia não é a criação de um simples pensador, mas um resultado de política local e divergências culturais e há, sempre, uma forte e suficiente força no Egito para eliminar todas as crenças locais ou para uni-las em um sistema teológico igualmente ligado a egípcios de todas classes e lugares. (1951, p. 39).

Devido ao poder temporário político, econômico e cultural de sua cidade, de seu sistema religioso, terminam por serem aceitos além dos limites de seus lugares de origem, mas isto não significa que as crenças dos lugares que eles invadiram vão abrir mão dos seus. Ao contrário, o novo sistema quase sempre vai se impor sobre o velho, de tal forma que o deus ou deuses do velho sistema serão identificados com os novos (1951, p. 39)

Quando surgem os deuses principais Seth, Hórus e Thot?

O berço de Seth foi Enboyet (Ombos, em grego), uma cidade no V nomo (distrito) do Alto Egito, entre as modernas vilas de Nagada e Ballas. Tem sido suposto que o tempo da grande prosperidade de Enboyet foi um pouco antes do período dinástico, o que é comprovado pelos grandes cemitérios da época (1951, p. 21). Com a fundação da 1ª Dinastia, o culto de Seth se espalhou além dos limites do seu nomo: Setekh se tornou “Senhor do Alto Egito” e um deus representativo de toda a parte do país. Nesta questão, ele ficou o grande rival de Hórus e essa rivalidade moldou a concepção da natureza do deus e o seu destino (1951, p. 21).

Hórus, também vem do período pré-dinástico e é o culto ao deus-falcão (em egípcio Horew “o alto ou elevado”), um nome ótimo para um pássaro de rapina que voa alto. Era cultuado em muitas localidades, sendo Hierakonpolis (em egípcio Nekhen) a principal. A capital do seu centro de culto era no Reino do Alto Egito, onde se tornou Hórus. Era o deus do céu e na 1ª Dinastia, era representado em um barco cruzando o céu, como um deus-sol.

Como pode ser explicada a antropomorfização dos deuses?

A transição da concepção e representação do deus como animal e objetos para a forma humana, isto é, a antropomorfização, ocorreu no Egito, como entre outros povos quando chegaram a um certo nível de civilização.  A antropomorfização dos deuses deve ter ocorrido no início dos períodos pré históricos.  No princípio da história encontramos uma cabeça humana com chifres de vaca, presumivelmente da deusa Hathor, na paleta de ardósia de Narmer

A antropomorfização dos deuses foi sem dúvida influenciada pela identificação do rei com o deus Hórus, que era considerado o deus por excelência (1951, p. 29). Esta transformação dos deuses determina o último estágio no desenvolvimento, embora isto não necessariamente afetou todas as divindades ou apareceu em todas as classes da população ao mesmo tempo, porque os grupos menos intelectualizados, os camponeses, por exemplo, permaneceram mais tempo ligados às ideias zoomórficas e fetichistas (1951, p. 28).

Os egípcios  dificilmente poderiam descartar uma velha ideia em favor de uma nova. Eles deixariam ambas existir lado a lado, descartando a contradição lógica implicada na sua mera coexistência. Ou, quando possível, combinariam as duas ideias na composição de um todo. Assim, os deuses antropomorfizados recebiam um corpo humano, mas apenas raramente uma cabeça humana; esta, mais vezes, era substituída por a daquele animal em cuja forma o deus era originalmente acostumado a aparecer. O corpo humano de Hórus aparecia com cabeça de falcão. O de Anúbis, com cabeça de cachorro, e Khnum aparecia com cabeça de um carneiro. A adição de uma cabeça de animal para o corpo era inteligentemente executada, a verdadeira junção sendo conciliada pelas dobras do toucado e do lóbulo da orelha (1951, p. 29).

Hórus com cabeça de falcão; Anúbis, com cabeça de cachorro e Khnum com cabeça de um carneiro.

Todos os deuses egípcios foram criações deles?

Os deuses egípcios tiveram sua origem no país; embora tem sido sugerido, algumas vezes, que eles vieram de fora, e é possível demonstrar que alguns deles possam ter vindo de fora, seus nomes podem ser explicados pela linguagem egípcia. Eles são, então, puramente nacionais e como tal permanecem até que a política egípcia imponha 134 seu culto nas vizinhanças, como Núbia e Sudão, Palestina e Síria. Mas, em seu isolamento original, eles eram apenas do Egito (1951, p. 41). Os egípcios eram tolerantes com outros deuses dentro do Egito e igualmente com os deuses dos conquistados (1951, p. 41). Eles simplesmente os consideram como formas de suas próprias divindades. Está claro que, nessas circunstâncias, nenhuma heresia pode aparecer e, com exceção do curto período de Akhenaton, nada é conhecido sobre perseguição religiosa. Está pouco definido se a religião de Akhenaton fosse intencionada como universal, para todas as pessoas do império, muito embora alguns aspectos o sugiram. É curioso que medidas de força tivessem sido tomadas, tanto na sua disseminação como na sua posterior supressão (1951, p. 41). Cercados pela natureza de que dependiam, os egípcios viam a natureza divina em todo o cósmico, acima da terra, céu e ar, as enchentes do Nilo presentes em todo o lugar e sem necessidade de um tempo ou forma organizada de culto (1951, p. 41).

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Este artigo é parte do livro: DeusesMitos e Ritos do Egito Antigo: Novas Perspectivas, de Margaret Marchiori Bakos e Maria Aparecida Silva (Eds)

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