Cuidado com os lobos

Margaret Marchiori Bakos

 Entreguei o texto à Matilde e me afastei rapidamente da varanda, mas ainda a tempo de vê-la estirar-se na rede folheando, com interesse, o manuscrito.

Fui caminhando em direção ao bosque fechado que mantínhamos na propriedade, a despeito das críticas de amigos e, principalmente, de vizinhos, com crianças pequenas que, raramente, deixavam que elas viessem nos visitar – mesmo acompanhadas – é claro. Jairo, principalmente, era o mais desconfiado. Trazia sempre um facão de churrasco na mão, disfarçado pelo velho casaco de malha desbotado com que andava sempre. O discurso de todos era o mesmo. Era comum aparecerem bichos daninhos em capões como este, tão perto do rio, diziam. Muitas vezes eles vinham da outra margem em busca de comida. Não me surpreenderia ver um lobo revirando os dejetos da casa.

– Nosso lixo fica guardado em uma grande caixa fechada na cozinha, dizia Matilde, sem se aborrecer com a impertinência dos vizinhos. 

Sempre com seu riso cristalino e imitando o uivo de um lobo, tirava todos do sério, enquanto esperavam pelo cafezinho e pelos famosos bolinhos de chuva que ela, há anos, sempre oferecia.

Me ocorreu que o dia estava com um sol radioso, agora se minguando no cair da tarde, mas isto sequer fazia diferença pois, na nossa casa, sempre se servia bolinho de chuva. Também Matilde estava longe de ser uma leitora modelo. Lia, às vezes, o meu texto, de trás para frente, o que me aborrecia muito, mas, ao final, gostava de ouvir como ela tinha entendido os meus pensamentos. Algumas vezes, até ela me ajudava, mas sempre muito longe de ser uma leitora modelo.

Agora, de todos os meus amigos, quem mais me incomodava era Jairo, principalmente quando eu lhe dava os meus textos para ler. Nos últimos tempos, evitava fazer isto porque me irritava demais com as suas críticas.  Muito racionais, pois a minha perspectiva se alinhava com a do meu autor inspirador, Edgar Allan Poe. Jairo era, de fato, um leitor empírico e desordenado. Engraçado que, agora falando nele, pareceu-me ter ouvido a sua voz. Será que ele teria coragem de entrar no meu bosque? Devia estar com seu facão. 

Enquanto eu me ria, imaginando o medo na cara de Jairo, deparei com o olhar magnético de um lobo! Com a corda que sempre trazia comigo,  fiz um laço com rapidez e o prendi pelo pescoço. O bicho gania, puxava com violência o laço mas, graças aos meus treinos diários com a corda, ele nada conseguia fazer contra mim!

Ouvi novamente a voz de Jairo. O desgraçado ria e falava ao mesmo tempo, querendo muito me dizer sua opinião sobre o meu conto. Matilde tinha lhe passado o texto e os dois riram muito com o que eu havia escrito. As suas atitudes, mais o boato corrido na última festa do condomínio, de que Jairo e Matilde, sob efeitos do álcool, sumiram, aos risos, da reunião dos vizinhos, por longo e impreciso tempo, me deram uma ideia maldosa de vingança, que me pareceu extraordinária.

Sabia que ele, a chamado de Matilde, estaria lendo o meu conto. Desconfiava muito do relacionamento entre eles. 

Gritei o seu nome e ele, prontamente, respondeu. Assinalei com minha pequena lanterna onde eu estava. Ele logo gritou:

 – Já estou te vendo, amigo. 

Foi se aproximando, cortando, com passadas pesadas, o mato crescido. Afrouxei o laço do lobo que, frequentador assíduo do mato, era motivo de medo nos moradores. O bicho resfolegava, quase se esgoelando e dava pulos furiosos.  Afrouxei a corda, sai de perto e fiquei aguardando o vizinho chegar, para soltar. 

Momentos depois, me assustei com os gritos de Jairo e a possível voracidade do ataque do lobo, que alternava rosnados e silêncios. Imaginei ele mordendo as pelancas de Jairo. O coitado pedia socorro, desesperadamente. 

Ótimo, pensei. Ou ele esquecera o facão, ou não tivera tempo de pegá-lo. Corri para ajudar. Mesmo um crítico grosseiro  não merecia  passar por este susto!

Voltamos abraçados, contentes com a aventura. Jairo, com seu facão, cortava furioso as gramas altas do caminho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *