Cleópatra: Uma Egiptomania na Literatura Brasileira do Século XIX

Datado de 1864, há um poema escrito por Machado de Assis com temática inusitada no Brasil: uma declaração de amor à Cleópatra, em que o narrador se coloca na condição de  escravo  da  rainha  egípcia.  Como  entender  essa  criação  feita  por  um  dos  maiores escritores  brasileiros? 

Contextualizar um poema é mais que datá-lo: “é inserir as suas imagens e pensamentos em uma trama já em si mesma multidimensional” (BOSI, 1977: 13).  Nesse sentido, é importante ressaltar que entender a gênese de uma poesia, tendo como tema o Egito antigo, escrita por um expoente da literatura nacional da condição de Machado de Assis, é um desafio inusitado e instigante.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), escritor de origem humilde, iniciou sua vida profissional como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Trabalhou, a seguir, em diversos periódicos cariocas, inclusive na famosa Semana ilustrada, até que, em 1880, tornou-se o primeiro oficial do Ministério da Agricultura, Viação e Obras Públicas, continuando, porém, a colaborar com outros importantes veículos da imprensa como a Revista Brasileira. O poema sobre Cleópatra foi escrito na primeira fase de sua vida, caracterizada pela produção de poesias românticas e indianistas em contraposição à segunda, aos quarenta anos, marcada pelo pessimismo e o desencanto.

O poema, Cleópatra: Canto de um Escravo, é composto por 12 estrofes, cada uma com oito heptassílabos. Neles, Machado narra o caso de um personagem anônimo, possivelmente o próprio narrador, que se declara escravo de uma paixão por Cleópatra, apresentando a rainha da seguinte maneira:

“Era rainha e formosa,Sobre cem povos reinava,

E tinha uma turba escrava

Dos mais poderosos reis.”

Nesta passagem, Cleópatra é descrita como uma mulher de rara beleza que causava grande impacto nos homens, idéia essa firmada pela narrativa de Plutarco, que narra os preparativos da viagem de Cleópatra à Tarso, onde ela encontraria pela primeira vez Antônio, da seguinte maneira:

“Muniu-se de muitos dons e presentes, de muito ouro e prata, de riquezas e belos ornamentos, como se poderia obter de tão grande personagem, e um palácio tão opulento e um reino tão rico como o Egito. Não levou, porém, com ela, absolutamente nada, pois tinha toda a esperança e confiança em si mesma, nos seus encantos e na magia de sua beleza e de sua graça” (Plutarco, Vida de Antônio , XXXI).

Essa ideia plutarquiana de uma beleza majestática, por parte de Cleópatra, que, foi bastante frizado pela historiografia clássica, acabou sendo reafirmada posteriormente nas obras artísticas do período renascentista. Os olhos do narrador machadiano vê a beleza completa e rara de Cleópatra. Em sua memória, presentifica-se a imagem do poder de sedução da rainha. Imagem inspirada, provavelmente, das obras de autores do período greco-romano, como Plutarco.

Machado se encantou com o mito de Cleópatra, em seu imaginário se encontra presente a sombra do poder de sedução dessa rainha que, de tão forte, subjugou por meio de seus encantos dois generais romanos – Júlio César e Marco Antônio – tornando-os seus aliados em uma política de valorização do Egito que relegava a segundo plano os interesses de Roma.

Um dia veio ela às fontes
Ver os trabalhos…não pude,
Fraqueou minha virtude,
Caí-lhe tremendo aos pés.
Todo o amor que me devora,
Ó Vênus, o íntimo peito,
Falou naquele respeito,
Falou naquela mudez.
Só lhe conquistam amores
O herói, o bravo, o triunfante;
E que coroa radiante
Tinha eu para oferecer?
Sou um escravo, rainha.

O escravo do poema se encontra em um dilema: estando a frente da rainha que mantém relacionamentos somente com grandes homens, o que ele na condição social em que vive, teria a oferecer a ela? Assim, Machado reitera os inscritos clássicos ao se referir à Cleópatra como uma rainha ambiciosa, que se relacionou com César e Antônio, apenas com o objetivo de se utilizar do poder de ambos, para a construção do seu sonho de um Império Oriental.

Os dois últimos versículos se inscrevem, de maneira irônica, no fim trágico de Cleópatra, César e Antônio:

“Deixa alimentar teus corvos
Em minhas carnes rasgadas,
Venham rochas despenhadas
Sobre meu corpo rolar,
Mas não me tires dos lábios
Aquele nome adorado,
E ao meu olhar encantado
Deixa essa imagem ficar.
Posso sofrer os teus golpes
Sem murmurar da sentença;
A minha ventura é imensa
E foi em ti que eu a achei;
Mas não me apagues na fronte
Os sulcos quentes e vivos
Daqueles beijos lascivos
Que já me fizeram rei.”

Após conseguir conquistar Cleópatra o escravo se entrega a morte, pois para ele o simples fato de ter estado com a rainha já é o bastante. Os escritos dos antigos, principalmente os de Plutarco, nos mostram como o amor de Cleópatra foi um “vício” na vida dos dois grandes generais romanos, em especial foi o que bastava para a destruição de Antônio, pois: “o maior de todos os seus males foi o amor de Cleópatra“ (Plutarco, Vida de Antônio, XXX). O relacionamento desses homens com a regente do Egito, acabou por eclipsar seus grandes feitos, sendo Antônio até desmasculinazado por se submeter a tal amor. Foi devido ao amor que César e Antônio encontraram fins trágicos nas mãos de seus conterrâneos e Cleópatra derrota por Augusto encontrou seu fim no suicídio.

Machado atualiza nesse poema o princípio da prática de egiptomania, ou seja, a articulação de uma linguagem que combina arranjos verbais e/ou obras arquitetônicas/artísticas fundada na noção de encontro de tempos, neste caso, em específicos, abordamos o encontro entre Plutarco e Machado de Assis. Ela consiste na fusão da memória do criador com a história passada, no resgate da história, do elemento e em sua apropriação para a produção de novos sentidos. No caso desse poema, Machado usa a figura de Cleópatra, rainha egípcia que seduziu generais romanos, como metáfora da força do amor, que, em sua visão romântica, é o objetivo dessa criação poética. 

Portanto, é nesse tipo de transculturação que, como ensina Bhabha (2007: 20), encontram-se os ‘Entre-Lugares’ que “fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade”

Esse fenômeno, como evidência Humbert (1994: 26), foi ignorado, por alguns egiptólogos, e suas formas consideradas inadequadas esquecendo-se que tais adaptações foram o resultado espontâneo de um fascínio sobre o Egito, e, embora possam ter lucrado com recurso generalizado desta civilização, eles também ajudaram a espalhar a consciência dele. A arqueologia egípcia e até mesmo os egiptólogos colheram os benefícios dessa atenção, garantindo assim uma maior popularidade de sua ciência. Ou seja, a egiptomania, com todas suas distorções, contribuiu para tornar a egiptologia atraente para um público muito mais amplo que o acadêmico.

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