Cartas aos mortos

Os antigos egípcios manifestaram com extraordinária clareza, nas decorações das tumbas e em vários textos, sua certeza sobre a finitude da vida humana terrena. É encantador e confortante observar a simplicidade com que encaravam essa realidade. 

Os egípcios viam os mortos como entidades com sabedoria e poderes capazes de iluminar a vida dos sobreviventes. Diferentemente de outras sociedades, os defuntos, para os egípcios, não eram na essência malignos. Como os vivos, eles sofriam de oscilações no humor, dependendo do tipo de relação afetiva que os sobreviventes com eles mantinham. Tais laços sentimentais faziam com que os defuntos protegessem ou atormentassem os parentes vivos.

Pelo conteúdo dos textos funerários vemos que, na ótica dos egípcios, os defuntos moravam em tumbas, como se fossem suas casas terrenas. Os hieróglifos, representando da mesma forma a Capela Funerária e a Casa da Eternidade, revelavam a estreita relação que eles estabeleciam entre essas moradas.


Através da análise de cartas dos egípcios para os seus mortos, conseguimos entender um aspecto peculiar daquele período: o medo de que os mortos pudessem incomodar os vivos, se por estes fossem magoados ou esquecidos. Essa correspondência bizarra pode também revelar outras nuances daqueles homens, sobretudo a cumplicidade que estabeleciam entre si, independentemente das relações de carne e de osso.

Imagem: https://www.worldhistory.org/image/6732/letter-to-the-dead/

As primeiras cartas dos egípcios aos seus mortos datam do Reino Antigo. Ao longo do Primeiro Período Intermediário e no decorrer das dominações persa e greco-romana, elas foram muito populares. Os egiptólogos concordam em indicar a XIX dinastia, a dos Ramsés, como a fase clássica dessa correspondência peculiar. Na visão de Wente, tais documentos funcionavam basicamente como petições, feitas em forma epistolar, através das quais os egípcios buscavam comunicar-se com os seus mortos. Eram mensagens geralmente escritas em grafia cursiva hierática, encontradas em papiros, estelas ou em vasilhas, tipo bacias, as quais juntamente com as oferendas, eram depositadas nas tumbas dos mortos.

Muitas vezes as cartas eram redigidas por pessoas comuns, de ambos os sexos. É importante salientar que, de outro lado, fazer a correspondência de particulares era certamente um meio de vida para escribas sem uma atividade regular. Nas missivas aos falecidos, os vivos pediam geralmente para não serem perseguidos por espíritos descontentes e malvados. Pela crença no poder dos mortos de influenciar acontecimentos, os terrenos ainda pediam auxílio nas disputas com os próprios vivos.

Essas cartas conservaram-se em sítios, localizados além das áreas de aluvião, como a ilha de Elefantina, El-Lahun e Gurob. E em outros locais secos, como as necrópoles de Saqqara, de Mênfis, dos vales Tebanos e de Tell el Amarna.

A primeira edição da correspondência de vivos para mortos foi feita por Gardiner e Sethe, em 1928, revisada por Gunn, em 1930. A partir dessas transliterações, foram feitos artigos que reproduziram e modificaram, em alguns casos, as versões originais, e que foram divulgados em fontes diversas. Dispomos da atualização recente de Edward Wente em Letters from Ancient Egypt e de Edda Bresciani, em Letteratura e Poesia Dell’Antico Egitto.

A persistência desses egiptologistas em resgatar o sentido de missivas, escritas em épocas tão remotas e em linguagem desaparecida, permite atualmente rever aspectos, no mínimo, pitorescos e inusitados, da vivência diária em tempos antigos.

Da leitura das cartas, procuramos recuperar os sentimentos dos missivistas, transcrevendo alguns dos textos que, embora fragmentados e vagos, indicam essas manifestações humanas.

Vimos que o medo foi um sentimento fácil de ser resgatado das mensagens veiculadas entre os vivos e os mortos, no Egito Antigo.
Das oito cartas selecionadas , identificamos diferentes tipos de medo: de empobrecimento; de injustiças e injúrias; da falta de serviços eficientes; da ausência de pessoas queridas; da impossibilidade de gerar filhos saudáveis; e, finalmente, da perda da própria integridade física. Em nenhuma destas missivas, apareceu o medo de perder a razão. Por que será? Este é assunto para um próximo dia.

Leia as cartas completas no artigo: Relações nem sempre amistosas: os egípcios e os seus mortos

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