CARNAVAL, EGITO, ETIÓPIA E A PERPETUAÇÃO DA MEMÓRIA AFRICANA

No carnaval de 1988, boa parte das Escolas de Samba do Rio de Janeiro resolveu aproveitar a data dos cem anos da Lei Áurea para fazer o carnaval. Entre elas, encontrava-se a Beija-Flor, com Joãozinho Trinta, o detentor de maior número de títulos do carnaval carioca. Doze vezes campeão, premiado em todas as escolas de samba pelas quais passou, Joãozinho diz que, naquele ano, se inspirou no vale do Alto Nilo, nos povos negros que habitavam a África rica, os sudaneses, os etíopes e principalmente os egípcios. O carnavalesco teria percebido que a estrutura da religião egípcia era basicamente a mesma dos ritos yorubás praticados pelos negros africanos trazidos ao Brasil como escravos e, assim, usou o tema para exaltar a cultura negra. Veja alguns momentos do desfile da Beija-Flor no carnaval de 1988:

Dizia então o texto preparado pela Escola para a divulgação do enredo: “A Beija Flor buscou dar uma outra visão dos negros. Não como pobres e miseráveis como geralmente são vistos, mas como um povo rico, grandioso, que tinha cortes suntuosas e uma estética de encher os olhos de qualquer europeu. Os objetivos dessa apropriação da cultura egípcia era seguir a tradição da Beija Flor de trazer para a avenida o negro como um povo exuberante, cheio de belezas, riquezas e em busca da liberdade”.

Foi pelos mesmos motivos que a União da Vila do lapi, em Porto Alegre, levou para a avenida o enredo “Das orgias do Egito às folias do Areal”, em que associava a África ao Areal da Baronesa. Na justificativa para tal escolha, os carnavalescos da escola assinalaram: “[O carnaval teve sua origem nas orgias do Egito antigo, quando o povo comemorava suas vitórias com festividades extravagantes, com muita bebida e comida, onde não faltava dança e sensualidade imperava livre […] nobres e plebeus misturavam-se e se confundiam […]”. Ainda no Rio Grande Sul, a Escola de Samba Os Astros de Alvorada levou para o desfile o tema “Thoth escriba dos deuses”, novamente remetendo-se à preservação na memória coletiva da importância do Egito, e portanto da África, para a história da civilização. Vejamos alguns trechos do samba-enredo:

Tudo começou no Egito
Onde Thoth incorporou
O seu conhecimento naquele grande momento
Suas palavras já começaram a ensinar
Com linguagem divina
O seu poder todos querem observar
E Isis já mostrava que com suas palavras
Osíris começou a recordar
E vem…
Vem o deus Rá, senhor do sol
E a deusa Maat mostrando sua beleza
E os faraós com muita ginga desfilando sua nobreza
Na embarcação, sobre as águas do abismo primordial
Se premiava cada homem com recompensa e muita moral
[..]E chegou…
Chegou o mensageiro do Egito
Seu nome é Hermes mais um deus de emoção
Com deus Hades no pedaço
O meu recado vai para toda essa nação.

É interessante notar que, mais uma vez, aparece o apelo à unidade do povo africano, no caso identificado como “toda essa nação”. E novamente florescem imagens da monarquia, deuses, beleza, sensualidade, igualdade e faraós, estes representados como nobres justos e virtuosos que premiavam “cada homem com recompensa e muita moral”.

A monarquia, de forma mais recorrente e abrangente, está presente em diversos momentos da festa carnavalesca e, também, em muitos sambas-enredo das atuais escolas de samba. Os reis e rainhas são associados à divindade e ao mesmo tempo à justiça terrena, porém, mais do que um rei específico, o que importa realmente é a dialética entre sacro e profano que a imagem da monarquia incorpora, ou seja, a relação com o sagrado, a incorporação divina do rei e sua administração terrena justa e igualitária, que remete a figuras míticas, como o rei Salomão, a rainha de Sabá, o rei Baltazar, os faraós, entre outros.

Esses reis míticos, relacionados à história do povo africano, são associados muitas vezes a outros líderes que foram importantes na história do povo africano e seus descendentes, como o rei Zumbi, Ganga-Zumba, o príncipe Custódio, dom Obá, rainha Ginga, Chico Rei, entre outros, que reincorporariam esses atributos sacro-profanos e de luta pela justiça igualdade e liberdade do povo africano e de seus descendentes.

É o caso também do samba-enredo “Salomão e Sabá nas 1001 noites de Bagdá”, levado para a avenida pela Academia de Samba Puro, do Morro da Conceição, no carnaval de 2000. Na justificativa dos carnavalescos para a escolha do tema, lê-se: “O romance entre o rei Salomão e Belquis, a rainha de Sabá, envolve lendas e fatos históricos, povos envolvidos e acontecimentos da época, servindo de motivação para o desfile. Em seus 15 anos, a Samba Puro busca a paz que era o grande ideal do rei judeu”. Novamente surgem símbolos que nos remetem à Etiópia, à resistência, à utopia de paz, de igualdade, de liberdade do povo africano.

Desta forma temos uma África oriental mítica, utópica, milenar, presente na cultura afro-brasileira, mas cujos traços podem ser igualmente observados em vários pontos do planeta. Temos a representação dessa África oriental mítica desde a época da expansão do Império Romano, que expande também o próprio cristianismo e suas utopias. Percebemos, então, a busca por um rei negro cristão durante a Idade Média e ldade Moderna. Encontramos o próprio rei Salomão, que dá origem ao povo judeu da Etiópia, e visualizamos simples, mas profunda, relação entre a palavra Etiópia e utopia. Essa relação engloba, no ideário do povo negro, a utopia da igualdade, da liberdade, da unificação do povo africano, bem como do Oriente e Ocidente, na evocação de um retorno à ldade de Ouro, à terra prometida, à unidade perdida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.