Caçadas e montarias no Egito antigo

A caça era um dos esportes mais populares no Egito antigo. Aos faraós eram reservadas as perseguições a leões e elefantes, enquanto aos nobres cabia, apenas, os antílopes. A primeira cena conhecida de caça de uma pessoa não pertencente à realeza, com arco e flecha, data do I Período Intermediário, da tumba de Ankhtifi, em Moalla. Para os comuns, a caça frequentemente significava a busca de alimento: patos, gansos e pássaros selvagens. A evidência mais clara e antiga de que o uso do arco e da flecha era constituinte de um esporte competitivo, vem do Egito. 

O rei Tutmés IlI (1504 a.C.) registrou que suas flechas não apenas perfuraram um alvo de cobre com três dedos de espessura, como também emergiram três mãos de distância atrás dos mesmos. O rei Amenhotep II (1543 a.C) até oferecia prêmios para quem pudesse exceder sua performance com arco e flecha.

No Novo Império, os caçadores egípcios se beneficiaram de duas inovações trazidas pelos Hicsos: os cavalos e os carros puxados por eles. Assim, inicia-se uma nova técnica de caça, muito mais rápida e ao mesmo tempo perigosa: a caça ao avestruz entra em voga. Esse tipo de caça sobre rodas com arco e flecha parece ter agradado os reis, que descrevem e representam essas ações em diversos templos, tal como é descrito na estela de Thutmés III em Armant e na estela da esfinge de Amenhotep II.

Os egípcios antigos usavam diversas técnicas e instrumentos de caça, tal como redes, armadilhas, arpão, arco e flecha. Cada equipamento era usado para a caça de animais específicos, mas dentre os métodos de caça, o mais intrigante é o descrito por Heródoto para a caça ao crocodilo: Eles colocavam uma isca no anzol, um lombo de porco, e a deixavam flutuar até o meio do rio. Ao mesmo tempo, nas margens, eles pegavam um porco vivo e batiam nele. O crocodilo, ouvindo os gritos, ia na direção do porco vivo, encontrando a isca, a engole e é arrastado fora da água. A primeira coisa feita pelo caçador era, assim que ele estava na terra, cobrir os olhos do crocodilo com lama. Isso feito, ele é despachado rapidamente, caso contrário, ele dá muito trabalho.

Amenófis III (c. 1391 a 1353 a.C.) deixou textos gravados em escaravelhos comemorativos contando algumas de suas façanhas. Um deles se refere a uma caçada aos leões na qual foram abatidas 102 feras; outro fala de caçada a touros selvagens, na qual 96 animais foram massacrados. Este último texto afirma:

Um prodígio que aconteceu com Sua Majestade: vieram dizer a Sua Majestade que havia touros selvagens no deserto do distrito de Faium . À noite, Sua Majestade navegou em direção ao norte na embarcação real. Iniciou-se uma excelente viagem. Ao amanhecer, chegou em paz ao distrito de Faium; sua Majestade surgiu a cavalo, acompanhado de todo o exército. Foram dadas ordens a todos os oficiais e soldados, inclusive aos recrutas, para vigiarem os touros selvagens. Sua Majestade ordenou, então, que os animais fossem cercados por um muro e por fossos. A seguir, Sua Majestade atirou contra todos estes touros selvagens. Seu número: 170. Contagem da pilhagem feita por Sua Majestade na caçada daquele dia: 56. Sua Majestade passou quatro dias sem deixar que seus cavalos se recuperassem. Sua Majestade surgiu a cavalo. Número de touros selvagens que ele capturou nesta caçada: 40 bestas. Soma total: 96 touros.

O grande número de tais escaravelhos encontrados demonstram que serviam de meio de propaganda para o rei. A caça parece ter tido, além de uma função publicitária e recreativa, um caráter associado a uma representação de certo grupo da sociedade egípcia, a elite. 

Fonte: GAMA-ROLLAND, C.A. Atividades físicas egípcias antigas: jogos, treinamento militar e a força real. R. Museu Arq. Etn., 29: 7-19, 2017

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