Brasões com elementos egípcios

Duas cidades brasileiras, pelo menos, inscreveram elementos do antigo Egito em seus brasões. No brasão da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, encontramos um obelisco e no de Campinas, São Paulo, podemos ver a figura da fênix.

O brasão de Pelotas foi instituído em 1961, depois de um concurso promovido pela Câmara Municipal. Foram recebidos 28 trabalhos, com vistas à comemoração dos 150 anos de fundação da cidade. O brasão vencedor possui, no alto, uma coroa de cinco pontas que identifica a cidade como a “Princesa do Sul”; a esquerda, uma espingarda de arroz representa a maior fonte econômica da região; à direita, um ramo de louros simboliza “os triunfos alcançados no decorrer dos 150 de história”. 

No brasão propriamente dito, vê-se, acima, à esquerda, um índio numa embarcação de couro e a pelota puxada por um nadador, tal qual a primitiva pelota que originou o nome da cidade. À direita, um bovino lembra a indústria das charqueadas, primeira na região, responsável pelo desenvolvimento econômico da província. Embaixo à esquerda, o símbolo da Caridade de São Francisco de Paula, padroeiro da cidade. À direita, o obelisco, monumento republicano, homenagem a Domingos José de Almeida, o Patriarca de Pelotas; sobreposta, no centro, a Cruz de Malta, homenagem ao português colonizador.

A presença do monumento egípcio no brasão de Pelotas é explicada apenas como criação de um grupo de idealistas republicanos. É importante lembrar, ainda, que o obelisco era muito apreciado no continente americano, ao longo dos séculos XIX e XX, independente do país e/ou partido político, para assinalar fatos históricos e/ou pessoas de atuação significativa para a coletividade.

O obelisco era visto como um monumento estável, capaz de desafiar o tempo e eternizar a homenagem. Em um concurso realizado em 1833, para escolha de uma forma de honrar a memória de George Washington, presidente norte-americano, morto quatro anos antes, participaram vários projetos; entre eles, um que sugeria a construção de um obelisco e outro, um mausoléu piramidal. O vencedor foi o obelisco de 1,67m de altura, visível, ainda hoje, de quase todos os pontos da capital dos Estados Unidos.

Já o brasão do Município de Campinas mostra ícones que destacam valores caros à cidade. Os ramos de café, a cana-de-açúcar e a torre simbolizam a potência agrícola de Campinas de Mato Grosso no século XIX. No conjunto, chama a atenção a presença de uma fênix, que também está estampada na bandeira municipal.

A referência a esse pássaro fabuloso, adorado pelos egípcios antigos por comparecer na época das cheias do Nilo, fenômeno que assinalava um novo ciclo agrícola, explica-se, no brasão, por um fato histórico. Com a abolição da escravatura em 1888 e a proclamação da República em 1889, libertos e imigrantes que trabalhavam na lavoura vieram para a cidade, que não tinha condições sanitárias apropriadas, o que desencadeou uma epidemia terrível de febre amarela. A população foi reduzida de vinte para cinco mil habitantes. Na década seguinte, a cidade recuperou a população e, agradecida, colocou na bandeira e no brasão a fênix, numa alusão ao fato de o local ter renascido das cinzas após a mortal epidemia.

As adoções de figuras mitológicas egípcias nos brasões brasileiros revelam a forte presença do Egito no imaginário coletivo, bem como o conhecimento das qualidades originais desses elementos. No Caso do obelisco e da fênix, as idéias de permanência e renovação, que os eternizaram, são a razão de escolha e reutilização dessas imagens, milênios e milênios após sua criação.

Ainda há muito para ser pesquisado em relação aos obeliscos brasileiros, investigando e registrando o que eles podem revelar sobre a própria construção da história e da memória nacionais. Pelo material durável de que são feitos, com certeza os monumentos irão sobreviver por várias gerações. No entanto, é preciso que nos apressemos. Pela falta de registros oficiais, pela inexistência de placas informativas, pelo estado de má conservação e abandono que muitos estão relegados, já é difícil, atualmente, descobrir por que ou por quem foram construídos. Corre-se o risco de, no final das contas, sabermos mais sobre os obeliscos originais, construídos no Egito a milhares de anos, do que sobre esses que estão por aí, pedindo nossa atenção, espalhados pelas ruas das principais cidades brasileiras.

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