BRASIL REQUER A PRESENÇA DO IMPERADOR

As viagens do imperador ao exterior e o amor dedicado aos estudos e às ciências geravam artigos críticos e inspiravam caricaturas, publicadas em folhetos e jornais satíricos, que ridicularizavam a sua postura de “monarca itinerante” (Schwarcz, 1998, p. 416). Uma dessas caricaturas foi divulgada na Revista Ilustrada em 1871, ano da primeira viagem do monarca ao Egito. Apesar da irreverência, utiliza os elementos egípcios com maestria.

A imagem publicada pela Revista Ilustrada pode ser analisada como um bom exemplo da prática de egiptomania, ou seja, de reutilização de motivos do antigo Egito na criação de narrativas e imagens contemporâneas, com novos objetivos, nesse caso, a sátira política. Vê-se D. Pedro representado como a cabeça da esfinge, fabulosa criatura com face humana e corpo de leão. O monarca porta o característico adorno de cabeça denominado nemes, utilizado apenas pelos reis do Egito. De tecido listrado, é encimado pelo sagrado uraeus, a imagem da serpente, que representa o olho incandescente de Rá e a própria natureza da Coroa, geradora de vida, pelo calor, e morte, pela estiagem. Na caricatura, o artista substituiu o símbolo da realeza egípcia pelo emblema da coroa brasileira. E, no toucado, há as inscrições das três questões que, no Brasil, precisavam ser resolvidas: a política, a econômica e a religiosa. Ao pé da esfinge, o caricaturista desenhou pessoas com os braços levantados, que fitam o governante, como a exigir uma atitude.

As viagens de D. Pedro II atraíam-lhe críticas também no exterior. Em 28 de abril, o L’Illustration anunciava que Paris havia recebido, com satisfação, um hóspede notável e muito modesto. O artigo descreve D.Pedro como uma pessoa melancólica, afável, que dispensa regras de etiqueta, se hospeda em albergues e aprecia muito visitar museus. Depois, assume um tom debochado e aventa a hipótese do imperador ter encontrado o segredo de governar por correspondência. O texto termina com um comentário cômico de Littré, posicionando o imperador entre dois exemplos extremos de governantes. De um lado, Marco Aurélio, sábio imperador romano e, de outro, Yvetot, famoso rei merovíngio bonachão do cancioneiro político francês.

A referência deve-se ao fato de D. Pedro, como governante, limitar-se a enviar, de tempos em tempos, um telegrama ao Rio de Janeiro, capital do império, com o seguinte conteúdo: “Brasileiros, meus amigos, continuem a obedecer às leis e a aproveitar a liberdade. Estou a caminho para me juntar a vós”.

Quando, em outubro de 1877, D. Pedro II finalmente retornou ao Brasil, foi recebido com festas pela população do Rio de Janeiro. Segundo o jornal A Reforma, do dia 9,

“Sua Majestade quer que se saiba que no correr de toda a sua ausência, nunca por telegrama se envolveu nos negócios do Estado, como disseram alguns órgãos da imprensa do país.”

D. Pedro I e D. Pedro II foram os iniciadores da aproximação do Brasil com o Egito antigo. O primeiro deixou como legado o expressivo acervo egípcio do Museu Nacional. O segundo, seu diário, publicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. e as fotos feitas ou adquiridas nas viagens ao exterior, particularmente ao Egito.

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