As instruções de Any

Na última semana, falamos sobre a vontade de Naunakhte, duas pequenas folhas de papiro encontradas na necrópole de Deir el Medina. Esses documentos revelaram instruções de uma mulher que escolhe, entre os seus oito filhos, a quem premiar com a herança de seus pertences.

Outros inúmeros documentos foram encontrados no mesmo sítio, de cartas completas e fragmentadas até uma considerável porção de texto literário conhecido como as Máximas de Ani.

Os textos não foram escritos pela mesma pessoa porque a grafia do testamento de Naunakhte é grande, grossa e descuidada na forma, enquanto a do texto que veremos a seguir é menor e caprichosa.

As instruções de Any foram compostas no Novo Reino, muito possivelmente no decorrer da XVIII Dinastia. As instruções têm duas características peculiares que as diferenciam das instruções dos períodos anteriores:

  1. A primeira peculiaridade é que o autor se apresenta como um “homem comum”, fazendo-se entender e agradando aos que têm apenas algumas posses e uma educação mediana.
  2. A segunda peculiaridade encontra-se no epílogo, onde o filho, em lugar de agradecer humildemente a lição recebida, como ocorria nas instruções anteriores, faz objeções não apenas quanto ao sentido da mesma, mas também quanto às suas possibilidades pessoais de obedecer ao que lhe foi ensinado.

Dessa forma, o autor introduziu uma nova dimensão de interpretação às instruções: o pensamento de que o impacto da instrução poderia fracassar, pois a capacidade de educar tem os seus limites.

O texto refere-se muitas vezes a relações entre homens e mulheres, para cujo sucesso Any faz quatro recomendações básicas:

As Instruções de Any referem muitas vezes a relação entre homens e mulheres. Com as recomendações de: que um homem tome uma mulher, enquanto é jovem; que não a controle em casa quando sabe que ela é eficiente; que evite mulheres estranhas, que aparecem na cidade.  Finalmente, salienta-se o conselho mais importante, até mesmo pelas circunstâncias de essas instruções terem sido encontradas com uma das cópias das vontades de Naunakhte: é o tipo de tratamento que ele reserva à mulher, por parte dos filhos, porque ela os sustentou em uma canga, amamentou até os três anos, limpou os seus excrementos quando eram nojentos, alimentou-os quando eram estudantes. A retribuição dos filhos vai evitar, segundo Any, que a mãe chore e/ou amaldiçoe a sua prole. A vontade de Naunakhte e o texto de Any apresentam um exemplo de punição exemplar, quando uma mulher não é valorizada na condição materna. Talvez seja essa mensagem que esclareça a existência das Instruções de Any, como um discurso de cunho moral para cópia e memorização dos escribas em seu longo processo de formação profissional.

Epílogo: O filho acha difícil seguir esses e outros conselhos.

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