As estelas de Deir el Medina

As estelas são, em síntese, um monólito, em geral de pedra calcária, no qual está esculpida, em relevo, a imagem do dono da tumba em que ela foi colocada. O morto aparece fazendo oferendas a um deus, acompanhado por fórmulas apropriadas de encaminhamento e cortesia, em que seu nome e seus títulos são citados. As inscrições são geralmente gravadas em oco, isto é, escavadas. Em alguns casos, há um cômputo das atividades do morto. 

Usualmente, as estelas são de natureza funerária, votiva, comemorativa, ou servem como preliminares a um processo, embora essas quatro categorias sejam, muitas vezes, sobrepostas. 

As mais antigas estelas encontradas foram em cemitérios da 1ª e 2ª dinastias, mas tornam-se mais frequentes no início do Médio Reino, continuando em uso por muito tempo. Ficavam localizadas no ponto mais alto das capelas de oferendas, sendo erguidas e encostadas a um muro e/ou ajustadas às paredes. 

Segundo Georges Posener,  existem duas categorias de estelas com funções bem diferentes:

a) As grandes estelas reais, raras e muito importantes para os historiadores. Trata-se de uma espécie de aviso oficial, erguido em lugares públicos: templos, fortes e caminhos. No alto delas, um sol alado domina um rei e um deus na execução de um rito de oferendas; abaixo, há um texto em hieróglifos com as necessárias referências ao faraó, mencionando suas vitórias, expedições econômicas, embelezamentos de santuários ou oficializando a publicação de um decreto real;

b) As estelas funerárias, muito mais comuns, colocadas nas capelas das tumbas. Posener informa que a evolução morfológica e funcional dessas estelas é muito complexa. Em todos os casos, elas significam um ponto de comunicação entre o mundo inferior e o terrestre. Assim, a relação estabelecida entre a estela e a falsa porta nas mastabas do Velho Reino, por exemplo, tinham, com certeza, a função de uma porta verdadeira. Era através dela que o morto receberia os indispensáveis alimentos e ritos, trazidos para ele pelos vivos; era através dos olhos gravados na pedra que a luz chegaria diariamente ao falecido.

O numeroso conjunto de estelas e monumentos epigráficos localizados em Deir el Medina permite sua classificação sistemática por séries correspondentes a categorias diversas, que vão dos detalhes decorativos à sua procedência, uma vez que todos esses monumentos têm origem e datação, ficando circunscritos a um determinado lugar e período.  Pelas técnicas, estrutura, decoração e formulação de textos, as estelas são um espelho fiel do seu tempo no que concerne à configuração de costumes, ritos e objetos adotados em vida pelo destinatário.

A deusa Mertseger é aqui configurada na forma de um ureo, o símbolo do poder real, e porta sobre a testa o módio com um disco solar e as duas plumas altas de Amon, bem como o determinativo da inscrição. Ao canto da deusa, um altar h3t com uma broca nmst e duas flores de lótus. Uma linha horizontal de hieróglifos delimita a cena.

São representadas quatro grandes orelhas humanas simetricamente
afrontadas e sobrepostas, separadas por uma coluna de hieróglifos. A estela termina na parte inferior com uma linha horizontal de hieróglifos.

A deusa Mertseger, configurada com corpo feminino e testa de serpente,
precede a deusa Tawret, representada com face e corpo de hipopótamo ereto sobre as patas posteriores. Ambas as deusas portam acomodados no modio que sustenta os cornos da vaca e o disco solar. Mertseger porta o cetro was e o símbolo anh.

Algumas estelas de Deir el Medina misturam vários deuses, em especial divindades asiáticas, como Qadesh e Reshep. Há, ainda, as de trabalhadores que vieram de Amarna, cidade criada pelo herético faraó Akhenaton, nas quais aparecem sinais de martelamento do nome do deus Amon, uma vez que era obrigatória a adoção do nome de Aton, o deus criado por Amenófis IV. 

Um número considerável de estelas permanece com as cores originais; daí passarem a constituir uma série própria. Nelas aparecem tons de vermelho, negro, amarelo, azul, branco e verde. O vermelho é aplicado na parte desnuda das imagens masculinas e nos contornos, particularmente das linhas dos espaços destinados à escrita. As duas últimas cores são as mais raras. Os hieróglifos são sempre inscritos em cor azul ou negra. O preto também é muito empregado nas bordas; já o amarelo é reservado para o fundo. Nos casos em que se percebe o processo de preparação, o traçado foi feito em vermelho e, posteriormente, contornado pelo preto. Quanto aos objetos representados, é possível observar que recebem cor semelhante à que possuem na natureza: as perucas são negras; as vestes das pessoas, brancas; a água e o céu, azuis. As partes desnudas das mulheres podem ser vermelhas, como no caso do homem, mas também aparecem em amarelo e/ou rosa.

Segundo os especialistas, o fato de Deir el Medina ser uma vila constituída por artesãos qualificados possibilitou a feitura de estelas excepcionais devido à superfície preparada com esmero, com exemplos de incisões e relevos perfeitos e utilização de linguagem figurativa de maneira correta, com raras expressões equivocadas. As estelas trazem à luz as produções de artistas habilidosos e sensíveis, que aprendiam ortografia e estudavam iconografia em obras disponíveis na biblioteca da vila.

Leia o artigo Deir el Medina: deuses e escritas de si na epigrafia e aprenda muito mais sobre as estelas!

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