As Divinas Adoradoras de Amon

Foi durante o Novo Império que  as mulheres começaram a ganhar status. Nesta época, o Egito dotou a mulher de um estatuto igual ao homem, podendo ser constatado com as diversas fontes arqueológicas do Antigo e do Novo Império. Embora seu status tenha sofrido diversas mudanças ao longo do tempo, acompanhando as variações no campo político e sofrendo constantes altos e baixos na sua condição, a mulher egípcia ainda continuava a ter mais liberdade e direitos  do que outras de seu tempo.

Essa mulher teve também,  um importante papel na estrutura hierárquica e sacerdotal egípcia. Os antigos egípcios acreditavam na noção de complementaridade dos dois sexos. Na qual, a noção de feminino era essencial ao equilíbrio cósmico e aos seus respectivos pares de deuses. As deusas tinham funções primordiais tanto na criação do Universo quanto na manutenção da ordem. Essa igualdade entre homens e mulheres, presente nas crenças egípcias, se dava na terra e no domínio espiritual. Assim, não havia impedimentos para a mulher ocupar os mais variados cargos e as mais altas funções sagradas.

Uma das funções que a mulher egípcia podia exercer, era a de sacerdotisa. Elas eram encarregadas de celebrar cultos e rituais, exercendo seus poderes espirituais e litúrgicos nas principais cidades do país. As sacerdotisas, assim como os sacerdotes,  também poderiam servir a mais de um deus em diferentes cultos e em diferentes níveis hierárquicos. É por esse motivo que os títulos sacerdotais vinham sempre acompanhados pela indicação da função e do deus que serviam.  

Um dos cargos mais importantes era o de Esposa de Amon e posteriormente, Divina Adoradora de Amon. O posto de esposa de Amon com o passar do tempo foi adquirindo maiores atribuições e seu nome sofreu também variações até chegar ao de Divina Adoradora de Amón. Ambos os títulos existiam, às vezes, simultaneamente e poderiam ser carregados por uma mesma pessoa.

A primeira vez que se concedeu o titulo de Esposa de Amon a uma mulher da realeza foi a Ahmés Nefertari, mãe de Amenhotep I, da XVIII dinastia do Novo Império. Com esse título, tinha sob o seu comando as sacerdotisas e as Divinas Adoradoras. A partir de então, algumas rainhas da XVIII dinastia também passaram a usar esse título sacerdotal.

Na XVIIIª dinastia, com a rainha Ahmose Nofretary, as “Divinas Adoradoras” governaram a grande cidade de Tebas. O faraó concedeu-lhes um poder espiritual e temporal sobre a principal cidade santa do Alto Egito. 

Com o colapso do Novo Império e o domínio das dinastias vindas do norte, Tebas ficou sob controle das autoridades dos sumos sacerdotes. O cargo de esposa do deus passou então a ser usado pelos reis para manter alguma autoridade na região de Tebas.  O rei poderia indicar uma de suas filhas, que poderia ou não ser estabelecida na sua própria dinastia, mas que deveria cuidar de seus interesses. A indicação da sucessora também contribuía para manter esse jogo de interesses. 

O ofício de Esposa de Deus de Amon atingiu o auge de seu poder político durante o final do Terceiro Período Intermediário, quando Shepenupet I, filha de Osorkon III, foi nomeada pela primeira vez para este cargo em Tebas. O rei núbio Kashta, por sua vez, nomeou sua filha, Amenirdis, como seu sucessor. O alto status deste cargo é ilustrado pela tumba de Amenirdis em Medinet Habu.

Mais tarde, durante a vigésima sexta dinastia Saite, obrigaria a Esposa de Deus de Amun servindo na época, Shepenupet II, filha de Piye, a adotar sua filha Nitocris I como sua sucessora escolhida para esta posição.

O cargo continuou a existir até 525 AC sob o sucessor de Nitocris, Ankhnesneferibre, quando o Império Persa derrubou o último governante Saite do Egito, Psamtik III (526-525 AC), e escravizou sua filha. Depois disso, o poderoso ofício da Esposa de Deus de Amun desaparece da história.

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