Anões e cegos: faces da inclusão no Egito antigo

Os anões, no Egito antigo, eram valorizados pelo seu tamanho quando nasciam ou eram procurados por essa condição em incursões específicas ao sul do Egito, junto a tribos seletas do Sudão, em busca dos pigmeus, pela sua pequena estatura.

Razões de cunho mágico religioso os faziam especiais para atividades de confiança junto às cortes dos faraós, onde eram muito bem-vindos em espetáculos de lazer e nas atividades de administração da mais alta importância, como guiando inspetores na avaliação de propriedades, segurando os símbolos de seu poder. Eram benquistos, ainda, por cuidarem dos animais de estimação da realeza. Nessas e em outras funções, um expressivo número de anões tiveram papéis representativos, tendo premiados por enterramentos generosos, ou particulares ou nas tumbas de abastados senhores. Sem dúvida, um enterramento digno para a outra vida era a principal recompensa para um serviçal, naqueles tempos, e que permitem, na atualidade, lembrar da importância de suas presenças.

O destaque aos anões na história Egípcia costuma ser bastante comprovado em cenas de danças, onde eles confraternizavam com os bailarinos da nobreza. Além disto, um conjunto escultórico da família de Seneb, um alto oficial do Reino Antigo (cerca de 2500 a.C), mostra o anão com toda a sua família e narra suas riquezas, constituindo-se em uma das melhores fontes, até hoje encontrada, sobre o papel dos anões naquela sociedade.

Esculturas em sua tumba trazem, nas paredes e na “Porta Falsa”, uma biografia, onde ele é descrito como uma pessoa muito rica, proprietária de milhares de cabeças de gado, vinte palácios e muitos títulos religiosos. Foi casado com uma mulher do mesmo status social, que lhe deu três filhos. Alguns dos vinte títulos escritos na sua tumba também são muito significativos de sua intimidade com o faraó. Vejamos: “amado do rei”, “supervisor dos tecelões do palácio”, “supervisor dos anões”, “supervisor do barco cerimonial”, “do deus”, “supervisor dos anões do palácio”. Seneb ainda era responsável por executar ritos religiosos, como sacerdote, com o título de “Sacerdote do Wadjet”, sacerdote dos grandes touros de “Stpf” e “Mrhw”, ambos divinizados. Conta-se que ele teria participado dos serviços funerários do Faraó Queops (2589-2566 a.C), construtor da maior das três pirâmides de Gizé. Nessas ocasiões, ele vestia a pele de pantera e ostentava os símbolos do poder.

Na estátua, que foi descoberta em sua tumba, em 1926, Seneb está com as pernas cruzadas, ao lado da mulher, que o abraça carinhosamente, tendo em frente os filhos. A cena apresenta um equilíbrio e uma harmonia simétricas, cuidadosamente calculadas pelo artista. As feições de todos são muito realistas e Seneb é mostrado com os membros curtos, face à “acondroplasia”, sua forma de nanismo. Em várias cenas da sua tumba ele foi representado em liteiras pequenas, especialmente construídas para ele.  

O nome de Seneb significava saúde, que foi atribuído a uma escolha de sua mãe, talvez como um desejo para que o bebe sobrevivesse. Mas, como este é um nome muito comum entre os Egípcios, seu significado pode ser apenas de uma mensagem amorosa de saúde e vigor.

De fato, na cultura Egípcia, o nanismo era aceito com naturalidade e era a característica de um dos mais populares deuses do seu panteão: Bes. O mais simpático e alegre de todos, de quem se dizia que protegia os lares, especialmente as mulheres parturientes e as crianças.

 Registra a escrita que já Homero, na Odisséia (cerca de 800 a.C.) afirmava que, no Egito, os homens eram mais qualificados em Medicina do que em qualquer outra civilização. Heródoto (século VI a.C.) fortaleceu essa história narrando outras, entre as quais as súplicas de poderoso rei persa, Ciro, morto em 529 a.C., para que o faraó egípcio enviasse um médico para a sua corte, que era o centro do maior império da época.

Na verdade, os próprios Egípcios foram os grandes difusores de seu interesse e habilidades para tratar com as necessidades e deficiências de seus semelhantes. Se a cegueira era um tormento para os seres humanos desde priscas eras, tudo era tentado, no meio faraônico, para minimizar ou desagravar o sofrimento dos que sofriam com problemas de visão.

Do ponto de vista anatômico, os Egípcios conheciam somente a parte externa dos olhos. Eles diferenciavam as “raízes” (os músculos laterais do bulbo ocular) dos cílios, das pupilas e da parte branca dos olhos. Com tais conhecimentos, eles faziam diferença entre uma parte “externa” e uma “interna” no tratamento dos olhos. Intratável, porque considerada uma penalidade divina, era a cegueira total, por vezes tida como uma manifestação raivosa dos deuses.

Entre os acidentes de trabalho que podiam levar à cegueira foram descritos, entre os mais recorrentes, os que resultavam do contato com as pinturas das tumbas, que causavam coceiras, assim como das lascas que se soltavam e feriam os olhos. Além disso, a região Nilótica foi uma área onde se relatavam, com frequência, doenças dos olhos, como inflamações, leucomas, úlceras na córnea, cataratas e estrabismos. A pior de todas, tida como uma enfermidade contagiosa, que causava 50% dos casos de cegueira, tornou-se conhecida como “a Doença Egípcia dos olhos”.

A simpatia e a inclusão das pessoas cegas pelos Egípcios antigos nos foi mostrada pela presença deles nas festas, nas horas alegres na vida. Na condição de músicos, suas imagens pareciam afirmar que a falta do dom da visão era compensada pela sua musicalidade e pelo seu canto. Nessa condição, os cegos foram lembrados e registrados em inúmeras cenas da vida cotidiana, nas tumbas e papiros, independente da crença de que sofriam, pela condição física, vinganças dos deuses. Ao contrário, nos representa hoje que a perda do dom da visão foi compensada pela capacidade de fazer música e, com isso, trazer alegria aos contemporâneos.


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