A vontade de Naunakhte, uma mãe egípcia.

A vontade de Naunakhte é o título de um interessante artigo publicado, em 1945, sobre as instruções de uma mulher que, no Egito antigo, escolhe, entre os seus oito filhos, a quem premiar com a herança de seus pertences.

Muito se escreveu sobre a história do período faraônico e, nessas análises, o documento costuma ser citado como indicativo do papel importante e valorizado da figura materna naquela sociedade. O documento oferece essa leitura. 

Esse papiro, oriundo da vila de Deir el Medina, revela uma história muito peculiar. Ela informa que é muito comum documentos da Vila mencionarem inúmeras vezes as mesmas pessoas que, em geral, não pertencem à alta posição social. Ao contrário, entre as características mais importantes dessa documentação, está o fato de gravarem com mais frequência, em inscrições hieroglíficas e documentos hieráticos, os nomes dos trabalhadores, dos escribas empregados na decoração das Tumbas Reais de Tebas e dos membros de suas famílias. Essas informações possibilitam a obtenção dos vestígios, das rotinas e o conhecimento dos interesses dessas pessoas comuns.

É muito raro, entretanto, que o mesmo caso seja relatado várias vezes, como acontece com as vontades de Naunakhte, das quais se possuem quatro papiros. Essas cópias, encontradas em momentos diferentes, vieram de um mesmo lugar: Deir el Medina.  O documento também é peculiar pelo fato de tratar das vontades de uma mulher, acesso, posse e administração de seus bens pessoais.

A comunidade de Deir el Medina possuía a sua própria corte de justiça, conhecida pelo nome de kenbet, com a incumbência de resolver as diferenças entre os seus membros. O tribunal era composto por funcionários, contramestres, escribas e trabalhadores comuns que podiam ser chamados a cooperar por questão de antiguidade ou pelo respeito que inspiravam. As sessões se desenvolviam provavelmente nos dias de repouso dos trabalhadores ou, em certos casos, à noite. A corte estava habilitada a decidir sobre controvérsias civis e a se pronunciar sobre as criminais. Os casos mais graves, nessa instância, como injúrias capitais, eram levados à corte do vizir, em Tebas. A corte tinha ainda a função notarial de registro das divisões de propriedades. É pouco provável que ela arquivasse essas averbações e suas decisões judiciais. Os processos provavelmente deviam ser conservados pelas partes interessadas que os apresentariam em caso de necessidade.

A vontade de Naunakhete, cujo nome significa – Tebas está vitoriosa – inicia com a data de sua redação: ano 3, quarto mês da Estação da Inundação, de Sua Majestade o Rei do Alto e Baixo Egito, o Senhor das Duas Terras, Ramsés V, a quem na saudação inicial é desejada vida eterna. A seguir, segue-se a exposição do texto que trata das disposições sobre o destino a ser dado às propriedades, feita pela cidadã, perante uma corte composta por 14 homens. Era uma corte pequena, explica Cerny, talvez devido ao caráter particular do assunto. Todos os membros são citados nominalmente e discriminadas as respectivas atividades que exercem. O discurso informa, assim, sobre a possibilidade de participação no tribunal de todas as categorias de trabalhadores de Deir el Medina, desde escribas, desenhistas, funcionários até operários não especializados.

A fala apresentada, no tribunal, enuncia a posição social de Naunakhet e é expressa de forma objetiva:

Eu sou uma mulher livre da terra do Faraó. Eu criei oito servos seus, dei-lhes vestimentas e toda sorte de coisas que são normalmente feitas para pessoas de sua posição social. Mas olhe, eu envelheci, e olhe, eles não estão cuidando de mim na minha vez. Quem deles tenha me ajudado, a ele eu darei meus bens, mas quem não tem me dado nada, para ele eu não darei meus bens.

A seguir, Naunakhte indica para herdeiros três filhos homens, nomeados como trabalhadores, simplesmente. A um deles, ela diz que dará um prêmio especial: uma tigela de bronze. Ela também aponta uma filha, a quem ela dará alguns pertences. A seguir, Naunakhte elabora uma nova lista onde constam os nomes dos quatro filhos restantes, nomeados como um trabalhador e três cidadãs que não vão participar da divisão de 1/3 de seus bens pessoais e, sim, apenas dos 2/3 do pai deles. O escriba da tumba – Amennakht –endossa esse desejo, como segue:

Lista de trabalhadores e mulheres para quem ela concede coisas:
O trabalhador Maaynakhtef,
O trabalhador Kenihikhopshef. Ela disse: Eu dou a ele um prêmio especial (?) tigela de bronze;

O trabalhador Amennakht;
A cidadã Wosnakhte;
À cidadã Manenakhte ela disse que daria sua parte em todas as suas propriedades, exceto a porção de cereais e de banha que os três filhos homens e também a cidadã Wosnakhte tinham lhe dado.

Lista de seus filhos sobre os quais ela disse:

Eles não vão participar na divisão do meu 1/3, mas nos 2/3 do seu pai eles vão participar:
O trabalhador Neferhotp;
A cidadã Manenakte;
A cidadã Henshene;
A cidadã Khanub;
Esses quatro filhos meus, eles (não) participarão na divisão de qualquer das minhas propriedades. E também não das propriedades do escriba Kenhikhopshef, meu marido, e também não das terras e do celeiro de meu pai e também não dos cereais que eu acumulei com o meu marido. E esses oito filhos meus participarão da partilha de propriedades de seu pai em uma divisão apenas.
Quanto ao meu caldeirão que eu dei a ele para aquisição de pão e outros objetos devem permanecer para seu serviço como o que lhe cabe na partilha .Ele não vai participar da divisão de nenhum objeto de cobre, isto vai pertencer a seus irmãos (e irmãs).

Como essa liberdade de expressão de Naunakhte foi socialmente construída? Esse evento só se tornou compreensível porque foi encontrado junto às suas declarações, um registro que evidencia uma querela familiar em torno dessas vontades. O discurso revela o grau de insatisfação que o desejo de Naunakhte provocou junto aos familiares.

A contestação está registrada com a data do ano 4, do terceiro mês da inundação, dia 17. Nesse dia, o trabalhador Khaemnun e seus filhos se apresentaram à corte dizendo:

Assim como escreveu a cidadã Naunakhte com relação aos seus bens, assim deve ser executado exatamente como ela desejou. O trabalhador Neferhotp não vai participar nele. Ele fez um juramento para o Senhor dizendo que Se ele reverter seu compromisso e contestar novamente, então ele será sujeito a receber 100 chibatadas e a ser privado de suas propriedades.

Duas coisas chamam a atenção no documento. A primeira refere-se às testemunhas do fato: o trabalhador Khew, o chefe dos trabalhadores Nekhemmut, o Escriba da Tumba Harshire, o funcionário do distrito Ra’amose e Pentwere, filho de Nakhtmim, autoridades local e regionalmente muito expressivas. A segunda é quanto à dupla penalidade prevista, a evidenciar jogo de poderes presentes nas relações familiares.

A partir do comprometimento do marido e dos descendentes de Naunakhte de deter as atitudes contestatórias do filho – o trabalhador Neferhotp, e depois de uma investigação minuciosa, Cerny termina por entender como o acontecimento emerge, naquele contexto. Ele verifica que Naunakhte fora casada duas vezes e que os filhos nomeados no testamento não eram do escriba Kenhikhopshef, o primeiro marido. Eles tinham nascido da união com o trabalhador Khaemmun, o segundo esposo. Uma vez entendida a questão da paternidade, fica esclarecida a situação. Como a maior parte dos bens de que Naunakhte dispunha advieram-lhe da morte do marido escriba, ela o repassava apenas aos filhos que a agraciaram com carinho, trabalho e comida. Aos demais, ela dispensara um tratamento severo, com o corte de benefícios materiais e ausência de indulgência. Essa decisão afeta a Khaemnun e alguns dos filhos, fato que gera descontentamento e tentativa de reverter o desejo expresso de Naunakhte.

O caso de Naunakhte também é importante, porque mulheres são raramente mencionadas em ostracas e papiros da necrópolis. A maioria desses textos tratam do trabalho dos artesãos e dos suprimentos, assuntos extra familiares. De fato, o único tipo de ostraca em que as mulheres figuram são textos privados: cartas, recibos de vendas e transações de crédito, ações judiciais, especialmente aquelas relativas a heranças, oráculos,etc.

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