A porta do Chapéu. (Crônicas de Paris,Porto Alegre, RS:Class, 2019)

Fiquei deliciada com a dedicatória do Celso neste livro para mim e o Lucio, na vernissage, nos indicando como “personagens dele e das´nossas vidas’”; o beijo que veio junto com o carinhoso abraço tornaram o nosso sábado  mais feliz!

A Porta do Chapéu tem 240 páginas, o que significa que Celso necessitava nos contar muitas coisas guardadas ao longo de vinte anos, que ele divide em oito partes: A comunidade de Paris; Paris em Paris e arredores; Personagens em Paris; Perto de Paris; Paris e o cinema; Paris e a crise social, Quarto de empregadas em Paris; Paris e a Literatura.

Sobre o autor guardo lembranças pessoais porque ele é filho de grandes amigos, com quem formamos o “grupo dos dinossauros” pela nossa idade e com o qual costumamos nos  encontrar para comer em lugares simples, mas de ótima comida, como vários em Paris. Celso muitas vezes compartilhou conosco essas vivências maravilhosas.

Em uma entrevista, Celso disse que raramente passava um dia sem escrever nada e que isto era uma forma que ele via de se defender da angústia. Sim, porque quem pensa, sofre e ele nasceu filósofo pois a história, o passado e o presente, oriente e ocidente, pontuavam o olhar vivo daquele lindo menino, desde sempre.

Vou pontuar alguns temas onde fiquei mais tempo e identificada com nosso ‘bom amigo’, como o apresenta Davi Coimbra. Da primeira baguete, o primeiro metrô, as primeiras exposições das canelas nos banheiros, aos contatos com a comunidade parisiense às primeiras nevadas e o afeto crescendo no contato com a ‘concierge’, saímos de Paris para os seus arredores.

O mote da xenofobia atinge Celso na Rue de Miollis, que lhe mostra a Paris que maltrata os seus imigrantes. Ali ela exibe má vontade com tudo que não seja de origem francesa. Celso se revolta: origem francesa o que é isso?

Algumas coisas ainda continuam a incomodar, como a hora de ver o médico, o sistema de saúde e a sensação de que sabemos mais a língua da terra, mas estamos longe de ser poliglotas! Porém há coisas para se maravilhar. Celso conta sobre a primeira conferência que ele assistiu do Professor Jean-François Rabain, onde o mestre defendia a importância do teatro para a saúde mental. Era o encontro entre a psicanálise e a arte, em Paris, e a época fazia todo o sentido, para ele.

A mão que passa pela bunda alheia deixou nosso leitor de Michel de Foucalt surpreso. Ele começou a ver que o toque despudorado era um hábito em Paris. Hoje, perguntamos, o que fazem em época de coronavírus?

Paris é como um teatro para o observador culto e Celso aponta personagens da cidade que o fascinam, como o “homem da fila”, que deseja apresentar uma opera à sobrinha de 10 anos. Por isso espera na porta do teatro.

“Pensar não é tolo”, escreve o filho de Ieda Gutfreind, na p.115; com este mote ele traduz a palestra divina de Fayga Ostrower, que entende mais de arte que ninguém. Ele assiste a um pai francês cantar, literalmente, no cotidiano de educar a filha rebelde a não descer sozinha a escada da rua Censier. Quem conhece a escada, sente dó e carinho pelo pai. Nem todos os encontros foram piegas e Celso encontrou, na madrugada, uma prostituta porque há tantas em Paris – imensa, pintura borrada, seios gigantes – queria agradecer, na sua moeda, a ajuda de Celso para fazer o seu carro pegar. Celso agradeceu.

O corte de cabelo, a alegria do seminário, na Universidade Paris XIII, conhecer Esther e comer com ela os famosos sandwichs gregos na Porte  de la Chapelle, são crônicas para pequenos longos livros a partir da ótica do autor, ao escrevê-las.

Vendo o contorcionismo fantástico dos moradores de rua que se esgueiram no metrô fechando para dormir, se nota uma Paris que foge da urbanização e entra na escala mágica da solidariedade humana. É de chorar.

Também me emocionei com a crônica sobre a cantora coreana. O que me seduziu mais do que a luta da oriental para conseguir um emprego, foi seu contato com os vizinhos impacientes. Lembrei de imediato minha estadia em Paris, de apenas três meses, para um Curso no College de France sobre Egiptologia. Aluguei um ‘studio’, legal, na rua Lacépède, no Quartier Latin. No amanhecer de um lindo dia, vi uma cartinha bem dobrada entrando por baixo da porta. Ela pedia: “Por favor, Madame, não lave a louça tão cedo da manhã. Preciso dormir”.

Ficamos amigas, ela se separava, mudava de casa, estava deprimida. Também me emocionei, Celso, com a descrição das tuas moradias. Lembrei da visita à  casa em Montmartre, com suas peculiaridades. Deu saudades e chorei. Parabéns pelo livro. Sim, me senti uma personagem dele. Está maravilhoso!

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