A noção de espacialidade dos egípcios

O egípcios desenvolveram um grande interesse no entendimento do seu universo – como uma balança de duas forças diferentes – uma em direção à ordem e outra em direção ao caos. O mito de Hórus e Seth foi uma tentativa figurativa de capturar, em uma forma lógica, expressa por palavras e imagens, a sensação intelectual de que isso era uma grande verdade escondida.

De maneira concreta o Egito constituía um espaço constantemente ameaçado; pois seu vale estava prensado entre desertos hostis: construir cidades significava impor a ordem ao caos. Os egípcios nunca reivindicaram um termo especial para designar o seu próprio país, contentando-se com a designação de Kmt – a terra preta. Essa posição, em aparência modesta, correspondia na realidade a uma pretensão exclusivista, cujo princípio era a instituição faraônica, que permitia ao Egito existir no coração do “universo” confuso.

Assim, sobre o espaço destacavam-se duas palavras: “kmt”, terra negra, espaço vital, e “dashret”, deserto, lugar terrível, de morte e de animais perigosos. A transição dos campos cultiváveis para o deserto, no Egito, era abrupta, repentina. Visivelmente, a civilização terminava em uma linha demarcada. A terra fértil consistia de duas faixas, de 10 a 20 km de largura, que se estendiam por cerca de 900 km, desde a primeira catarata até o Delta, no Mediterrâneo. A foz do rio era no sul, para eles o ponto principal. As águas corriam em direção ao Mediterrâneo. A corrente era de sul para o Norte (Mediterrâneo); para baixo só com o vento ou remando. A extensão total do Nilo era de 6500 km.

Na visão de Badawy, parece que o Nilo planejou manter a vida nas planícies que criou, proporcionando enchentes anuais, em datas fixas, inundando terras baixas durante os três meses de julho a setembro. As águas retrocediam de outubro a dezembro, quando era possível semear na terra fértil, colhendo entre março e abril.

Os egípcios supunham que a grande fonte do Nilo era o oceano primordial Nun (foto ao lado), especialmente ao sul do Egito, na região da primeira catarata. O Nilo era a principal característica geofísica do Egito, personificado e deificado sob a forma de um homem gordo com seios pendentes, simbolizando fertilidade. Osíris também era identificado com o Nilo. O país não era chuvoso essencialmente, mas o grande Nilo com suas cinco cataratas oferecia a água necessária para a vida e cultivo.

No antigo Egito, a terra era configurada como uma extensão chata, sob a qual estava o grande abismo primordial, apresentando dois contrastes geofísicos fundamentais: o primeiro era entre o deserto e a terra fértil; o segundo, entre Alto e Baixo Egito. A terra era Geb, masculino, considerado o marido da deusa-céu, Nut, que dera à luz o deus sol Re, e a lua, Iah. As portas da terra, através das quais o sol passava todas as manhãs e noites, eram personificadas por uma esfinge dupla. O espaço que separava a terra do céu era conhecido como Shu e sua consorte Tefnut – ar e atmosfera personificados.

Administrativamente falando, o Egito estava dividido em Nomos. Os nomos eram grandes extensões de terras, onde se fundavam cidades (niwts) e aldeias (demis).  Inicialmente eram em número de quatorze. Nessas circunscrições, escribas e outros funcionários reais estabeleciam um organizado controle sobre a produção agrícola e artesanal da região. Segundo o Papiro de Wilbour, de 1143 a.C., “a água e o vento” informavam ao Faraó o que os seus representantes faziam nos nomos. 

Cerca de 1/3 da terra no Egito era arável. A extensão de terra habitável era de apenas 40.000 km, metade localizada no Delta. A porção de terra que cabia a cada família era calculada em uma medida, conhecida como 5 arouras, o que equivalia a aproximadamente 1,25 hec. Pela sua escassez, a terra tornou-se um bem de transmissão hereditária, adquirindo importância crescente política e socialmente.

No ato de escolher um local e construir suas moradias, os egípcios julgavam reproduzir a ação dos Deuses, impondo ordem no espaço caótico. Eles escolhiam um local suficientemente próximo ao Nilo para facilitar o abastecimento de água, mas longe o bastante para não sofrer com a inundação anual. Como Heródoto observou, todo o país, durante a cheia do Nilo, era coberto e submerso pela água, exceto as habitações, construídas sobre a altura natural ou dique, seja em importante cidade ou em vila que, de longe, assumia o aspecto de uma ilha. Bem na fronteira, entre o deserto e a terra fértil, a casa, tal como a colina primordial, sobressaindo do caos, assinalava, altaneira, a criação de um espaço ordenado para reprodução da vida. Representava a insurgência do homem contra o deserto e a morte.

Segundo a cosmovisão egípcia, os deuses estabeleceram conflitos e solução, quando criaram o mundo, legando à espécie humana a obrigatoriedade de conviver com essa realidade. O aproveitamento do vale fertilizado pelo aluvião do Nilo, através do trabalho braçal do homem, simbolizava a luta entre Osíris e Seth, com a vitória do primeiro, através de seu filho Hórus. O ser humano também contribuiu para a vitória da terra negra, deificando e adorando as forças da natureza, através de rezas e oferendas quotidianas. Qualquer egípcio, ao recusar corveia, voltar-se-ia contra os deuses, agredindo-os pessoal e diretamente. Quem se atreveria?

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