A NOÇÃO DE ESPACIALIDADE DOS EGÍPCIOS ANTIGOS

Os egípcios nunca reivindicaram um termo especial para designar o seu próprio país. Eles se contentavam com a designação de kmt  –a  terra preta. Essa posição, em aparência modesta, correspondia na realidade a uma pretensão exclusivista, cujo princípio era a instituição faraônica, que permitia ao Egito existir no coração do “universo”confuso. Os egípcios julgavam-se privilegiados e habitantes do único espaço de ordem e de vida criado a partir do caos primordial.

Sobre o espaço destacavam-se duas palavras: kmt – a terra negra, espaço vital e dashret – deserto, lugar terrível, de morte e de animais perigosos. Na arte, os egípcios expressavam um grande senso de simetria e de equilíbrio, em que a fidelidade das proporções e o contrabalanço de elementos eram usados para assegurar harmonia. Tais noções revelavam a sua visão do mundo.

Segundo o mito de criação de Heliópolis,  Nun englobava um universo duplo: o alto e o baixo, ou o mundo superior e o mundo subterrâneo, este na escuridão. Sobre o mundo superior estava Nut, o céu, já sobre o mundo inferior estava sua antípoda Naunet. Assim, fica assegurada  a existência de um céu abaixo para  contrabalançar  a existência do de cima, um consorte para cada deus. Finalmente, representando o equilíbrio entre as coisas incompatíveis, o sol transitava de um mundo para outro, ao longo do dia e da noite, de leste a oeste em um barco. A terra, no mundo superior, era personificada pelo deus Geb; o subterrâneo era conhecido como Duat. 

A dualidade e a necessidade de conviver com ela, está presente de maneira concreta no Egito real. O território egípcio era um espaço constantemente ameaçado, pois seu vale estava prensado entre desertos hostis. A transição dos campos cultiváveis para o deserto, no Egito, era abrupta, repentina. Eles supunham que a grande fonte do Nilo era o oceano primordial Nun, ao sul do Egito, personificado e deificado sob a forma de um homem gordo com seios pendentes, simbolizando fertilidade. Osíris também era identificado com o Nilo. O país não era chuvoso essencialmente, mas o grande Nilo com suas cinco cataratas supria a água necessária para vida e cultivo.

Deusa Nut como ela é tradicionalmente retratada.

O Egito era dividido em nomos, grandes extensões de terras, onde se fundavam cidades (niwts) e aldeias (demis). Inicialmente eram 14; sendo que no Novo Império somavam 42 nomos, dos quais 22 eram localizados no Alto Egito e 20 no Baixo. Nessas circunscrições, escribas e outros funcionários reais estabeleciam um organizado controle sobre a produção agrícola e artesanal da região.

Representados sobre a terra pelo Faraó, os deuses presidiam a ordem cósmica, exprimida pela verdade – Maat – justiça, tendo cada nomo, cada cidade o seu deus protetor.  A personificação e a deificação desses elementos, próprias do pensamento mitológico, reforçava a expectativa de seriedade esperada dos funcionários reais. Tal como os elementos cósmicos deificados identificavam-se com os interesses do Faraó e do governo central. Esses funcionários, comparsas humanos da cosmogonia, deviam fiel e metodicamente informar o Faraó sobre o que se passava nas periferias de seu reino. Não agir assim poderia ter, na cosmovisão egípcia, um resultado tão caótico que causaria ao Egito uma tempestade de vento, ou o Nilo poderia fluir no sentido contrário ao da corrente.

Segundo a cosmovisão egípcia, os deuses estabeleceram conflitos e soluções quando criaram o universo. Esses deuses legaram aos seres humanos a obrigatoriedade de conviver com essa herança.Além do trabalho, o ser humano era convocado a contribuir para a vitória da terra negra, deificando e adorando as forças da natureza, mediante rezas e oferendas cotidianas. Qualquer egípcio ao recusar o trabalho árduo, ou a dedicação aos rituais, estaria contra os deuses, agredindo-os pessoal e diretamente. Quem se atreveria?

A humanidade tem o seu cordão umbilical ainda ligado a terra, mas mudou radicalmente o seu pensamento sobre essa relação. Para o homem atual o ser humano é individualmente todo poderoso, diferente dos antigos egípcios, que viviam como uma espécie, que respeitavam todas as forças da natureza e as divindades.

Seria demasiadamente simplista atribuir seu relacionamento personalizado e vigoroso com o habitat unicamente ao estágio de suas forças produtivas. É preciso sublinhar o seu conluio com a natureza e valorizar o seu temor do retorno a um mundo caótico. Por fim, é preciso um pouco de humildade histórica: reaprender com os egípcios antigos a amar, a respeitar e a bajular a natureza.

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