A magia do olho Udjat

Essa representação de um olho – seja humano ou de um falcão – é, em primeiro lugar, um símbolo da escrita hieroglífica. Ela foi criada há cerca de seis milênios pelos anti­gos egípcios e foi, por eles, denominada de udjat

O termo udjat parece significar o todo ou o restaurado. Admite-se também que esse olho esteja ligado às fases de cres­cimento e de diminuição da lua, remetendo à mitologia que relata como o olho de Hórus foi danificado e, posteriormente, consertado. O olho, como aparece a seguir, juntamente com uma imagem de um uraeus palavra grega, criada para deno­minar a serpente que o rei passou a usar em sua coroa a partir do Médio Reino, tornou-se um símbolo da realeza egípcia. 

Eles começam a ser elaborados nos textos das pirâmi­des, esculpidas nas paredes da pirâmide do faraó Unas (2375- 2345 a.C.) da V Dinastia, em Saqqara, e dos governantes da VI Dinastia. Originam-se, portanto, no mais antigo corpus da literatura egípcia e funerária até hoje. Nessa pri­meira edição, havia 228 conjuros que foram sendo completa­dos por faraós posteriores até chegar ao número de 759, ha­vendo sido compilados pelo egiptólogo britânico Raymond Faulkner (1894-1920). 

Data da versão antiga, a representação do udjat, carre­gando uma cruz denominada de ‘ankh, conhecida como cruz ansata, que também é um símbolo hieroglífico. A forma da ankh, que pode ter se originado tanto de uma simples tira de sandália, como de um elaborado arco, significa vida. Leva­da pelo olho do falcão, a ankh representa a oferenda do fi­lho de Hórus, dos elementos da vida, o ar e a água ao faraó morto, seu pai. Ela confere-lhe o sopro da vida após a mor­te, no processo denominado de osirificação, ou seja, a pas­sagem do faraó defunto para outra vida, onde reinará por toda a eternidade. 

Na mitologia egípcia, o sol e a lua eram vistos como os olhos do deus falcão Hórus. Com o tempo, os dois olhos se diferenciaram: o esquerdo (o olho de Hórus) passou frequentemente a ser visto como símbolo da lua – udjat – e o direito (o olho de Rá) como o do sol. Dois peitorais do tesouro de Tutankhamon (l 334 – 1325 a.C.) mostram, respectivamente, o direito ou solar e o esquerdo embaixo do disco lunar, exemplificando muito bem essa dicotomia.

Esquerdo lunar abaixo = de Hórus e Direito da múmia acima = ólho de Rá. (WJlkinson, XXX, p. 42).

É importante compreender quem foi o deus Hórus nas narrativas fantasiosas para entender o simbolismo do udjat. Hórus é o deus falcão, cujo nome está presente na história do Egito Antigo desde os inícios do período dinástico (± 3000 a.C.). Sua primeira participação no processo histórico está representada na Paleta de Narmer. Nela, a ave lidera a subjugação dos inimigos em batalhas tribais que levam à unifica­ção do alto e baixo Egito e à formação de uma monarquia centralizadora e poderosa.

Durante a contenda pelo trono do Egito que durou oi­tenta anos, Hórus perdeu o seu olho esquerdo, da lua. Como era uma divindade da criação do mundo, o seu olho ferido tornou-se de imediato a representação da lua diminuída, sendo a seguir restaurado. Sobre a ação curadora há duas versões: ou ela foi feita pela Magia de Thot e/ou da deusa Hathor. O fato é que, depois da fase da lua nova, o olho sanado transforma-se em símbolo da lua cheia. Essa plenitude recuperada do olho fez com que cada um dos elementos – a sobrancelha, a pupila – se tornassem elementos formadores do sistema numérico egípcio. Reunidos, eles formariam o Udjat intacto, o número inteiro – ou seja, a boa saúde recuperada. Assim, por magia imitativa, o olho de Udjat tornou-se um amuleto que proporciona a integridade física e a valentia do corpo.

Sem que ninguém saiba como, os componentes do olho foram também utilizados para indicar as proporções dos componentes das fórmulas medicamentosas. Assim como hoje em dia, as proporções dos componentes das fórmulas são especificadas em suas formas fracionadas.

Na arte egípcia, há inúmeras representações de cegos, particularmente de harpistas, evidenciando que a limitação causada pela falta de visão não impedia a participação dos cegos no mundo do trabalho e na sociedade em geral.

Menos compreendido que os olhos dos humanos, o udjat chega até os dias de hoje, com uma composição misteriosa, que ainda não é completamente conhecida: permanece a dúvida sobre a espiral estilizada, linha da lágrima, sob os olhos, algo semelhante ao que se encontra na face do leopardo, animal que, por associação a textos da antiga mitologia egípcia, está ligado ao céu, em virtude da aparência estrelada da sua pele.

Pela sua importância mitológica e matemática, o olho sagrado foi muito empregado, na iconografia egípcia, em jóias e múmias, especialmente.

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