A CIDADE NO PERÍODO FARAÔNICO

O estudo da cidade no Egito Antigo, no decorrer do período faraônico, é extremamente importante, porque a dominação se exerceu basicamente nas margens do Nilo, sendo que as vilas e cidades, além de baluartes de insurgência contra o deserto e a fome, foram também, e fundamentalmente espaços para o exercício do controle da produção pelas elites  no poder. Essa extensa rede urbana foi aproveitada e atualizada pelos conquistadores helenísticos e romanos.

Os egípcios usavam diferentes termos para designar os seus agrupamentos, destacando-se entre eles niwtpara cidade e dmi para aldeia ou povoação. O fato revela uma sociedade complexa, onde os povoamentos são diferenciados e têm funções específicas. Esses sinais hieroglíficos são muito antigos e já apareciam em textos da primeira Dinastia (3000-2890 a.C.).

O hieroglifo determinativo para cidade é um círculo ao redor de uma cruz em diagonal. Há um consenso entre os egiptólogos de que o hieroglifo sugere claramente a ideia de ruas cruzadas dentro de uma área cercada de formato circular ou oval. Os arquitetos egípcios desenvolveram os planos de ruas e cidades 2000 anos antes de Hippodamus de Mileto, que no século V a.C., introduziu um sistema de planejamento urbano na Grécia antiga.

O hieroglifo resgata a história de aglomerações nascidas no cruzamento de caminhos, protegidas por paliçadas circulares, constituindo um modelo que se manterá até configurar o cardo-decumanos dos romanos. Nesta ótica, o hieroglifo passa a ser a chave de um “urbanismo raiado” em volta de um centro que é o seu “coração e alma”. Geneviéve Sée exemplifica esse raciocínio com a análise dos vestígios da cidade d’Athribis, que configuram a perfeição o hieróglifo determinativo para cidade. No centro há lugar para o templo,”casas” ,administrativas, como eram chamadas e moradias maiores dos altos funcionários.

Planta da cidade de Athribis.

Outro fator importante é que foram decifrados inúmeros textos indicando que em determinados momentos da história do Egito faraônico houve claramente a preocupação de promover a construção de cidades. Isto ocorreu, por exemplo, em períodos tão remotos quanto o do governo do Faraó Userkaf, da quinta Dinastia. As primeiras pistas que revelaram este fenômeno foram expressões tais como “supervisor das cidades novas e governante das cidades novas”. É importante esclarecer que planejamento urbano no Egito Antigo significava fundar um povoamento com determinada densidade populacional tão logo quanto possível e não criar um modelo ideal de cidade.

Durante o período faraônico houve uma preocupação dos faraós e dos monarcas em estabelecer centros administrativos para o controle da produção, que era basicamente agrícola. As vilas e cidades que diferiam no tamanho, tinham fundamentalmente a função de serem centros administrativos: não obstante, havia cidades que eram também cidades-templos e cidades-fortalezas.

    As vilas do Egito faraônico são incontáveis. As aglomerações, denominadas pelos egípcios de cidades, existiam em menor número e eram principalmente as capitais nacionais. Tebas e Mênfis eram citadas nos textos como “a cidade do norte” e “a cidade do sul”.

    A partir do novo império, o Egito começou a sofrer sucessivas e diferentes dominações dos líbios, núbios, persas e assírios. Foi somente com os Saítas (664-525 a.C.) que a dinastia reinante voltou a ser egípcia. Amósis, o faraó guerreiro desta fase, foi o primeiro a contratar mercenários gregos e a fundar uma cidade grega – Naucrátis – no delta.

Os egiptólogos são unânimes ao interpretar esse ato de fundação de Amósis como uma engenhosa estratégia política: de um lado, na nova cidade, os gregos tinham toda a liberdade de comerciar, e de outro estavam protegidos do ódio dos nativos e do horror que tinham pela presença daqueles no Egito. 

    Houve no Egito faraônico a preocupação de fundar cidades com o objetivo de exercer um controle mais efetivo sobre a produção e a circulação das pessoas. Vilas e cidades eram fundadas ao longo do rio Nilo, responsável pelas suas enchentes, pelas riquezas do Egito.

    A eficiência com que Roma, posteriormente, explorou o Egito devia-se a sua própria organização administrativa, mas também, e principalmente, a excelente distribuição, ao longo do Nilo, de vilas e cidades aparelhadas para um exercício de recenseamento e controle de produções perfeitamente adequadas e que foram, sem dúvida, uma herança faraônica exemplar até mesmo para os seus dominadores.

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